Em terra de bom ladrao: vão-se os dedos, ficam os anéis

medico palhaco

Assim como um bom poeta tem mais inspiração quando está sofrendo por amor do que quando está feliz, uma boa contadora de história, tem mais o que contar quando acontece uma tragédia do que quando tudo está tranquilo.

Então… oia eu aqui outra vez.

Enquanto escrevo essas linhas mal traçadas, meu super dedinho passeia flutuante sobre o teclado… sem poder digitar nenhuma teclinha.

O que foi dessa vez, ne genthem?

Estava Aninha pastry chef, cansadinha e estressadinha, se forçando para terminar um dezembro mega punk, trabalhando uma média de 14 horas por dia, literalmente, sambando o samba do criolo doido dentro daquela cozinha, servindo sobremesa pra 800 bonitos por dia…

A galera toda no limite do cansaço, misturado com stress e aquela sensação de “puta merda… isso vai acabar ou não?”

Sexta feira, o restaurante ficaria aberto até a próxima quarta, mas – teoricamente – era o penultimo dia movimentado do ano. Em cada canto ecoava o mantra “mais dois dias, mais dois dias”.

O almoço já tinha ido. 300 e alguma coisa… preparação… correria… tudo ficando pronto para o round 2 do dia…

Tirei um break, voltei – mais cansada e lesada do que tinha ido, porque quando o corpo esfria o bicho pega – continuei fazendo minhas preparações… arrumando tudo pro boom que aconteceria entre 20:30 e 23h… Quando foi umas 20:10 meu chefe volta de uma pausa cigarro e eu saio da cozinha pra ir tomar uma arzinho também.

Sentei por cinco minutos… dai fu… as pernas pesadas, a cabeça cheia, os ombros que sentiam o peso do mundo. Levantei pra voltar com uma ideia na cabeça: “Vou vazar! Pra mim deu! Hoje eles dão conta. Se ficar hoje, não consigo amanhã estar aqui de novo às 10 da manhã…” E todos esses pensamentos kamikazes estavam bombardeando a minha cabeça. Só tinha um porém: “Como vou convencer meu chefe disso, sem causar um bico que vai da cozinha e bloqueia a saída?” PQP!

Pensei: “Vou fazer um pipis, aí penso em alguma coisa, digo e já vazo bem rápido. Antes que o caos comece e mudem de idea”

E lá fui eu como um raio para o banheiro.

Pois é, amiguinhos.

Se você chegou até aqui, devo te alertar: As próximas cenas serão a descrição de muita dor, sangue e confusão. Encha o estômago. Esvazie a bexiga. Tirem as crianças da sala. E cola na da Aninha.

Atravessei o longo corredor que liga a parte de fora, com a cozinha e a parte interna do restaurante. Entrei pelo pequeno corredor que liga o escritório aos banheiros e trocadores dos funcionários. Para chegar à essa última parte, existe uma porta pesada, dessas que você puxa e ela volta sozinha.

Pois bem, puxei. Na hora que abri, alguém estava saindo do banheiro. Então segurei a porta pelo outro lado, para dar licença para a pessoa sair. Na hora que fui soltar a porta, minha mão deslizou por ela… e meu dedinho foi caçar o que fazer no vão da quina. A porta é pesada… O peso fez a porta voltar…

Não está precisando ser gênio pra sacar que o cacete da porta fechou no meu dedinho!!!

AAAAAAAAAAIIIIIII, QUE DOR!

A única coisa que fiz, foi empurrar a porta de volta, para tirar o cotoco e com a visão do sangue, fui deslizando para o chão. E lá fiquei, pensando: “Que merda, que merda, que merda, que merda”

É, galera, não esperem que vai ter muitas palavras bonitinhas quando a pessoa tá encarando tipo a ponta do ossinho falando “Hello! I speak English as well. Finally we met. How are you doing?”

Tipo, se não consegue lidar com alguém pensando e escrevendo “Que merda, que merda”, bem… vá à… procurar uma coisinha mais soft pra ler… hehe

Voltando ao dedo pendurado… eu lá jogada na chon… daí passou alguém no corredor e viu essa musa lá jogada às traças e claro que se desesperou para saber o que tava pegando. O porquê de tanto sufrimento.

Eu só fiz um sinal com a mão não afetada e disse: “Go get some help!” Lá, mona jogada… cena deprimente.

Em menos de trinta segundos estava rodeada de gente me perguntando o que aconteceu.

A sorte é que minha melhor amiga e o Gaetano também trabalham lá. E logo eles chegaram. Francine saiu melhor enfermeira do que a encomenda. E Gaetano, expulsou todos os urubus de volta e ficou lá sofrendo comigo.

Bora pro hospital? Calma que a coisa não é tão simples assim.

Um dos supervisores chamou uma ambulância e nos explicou (ele é irish) que mesmo sendo uma noite super busy (última sexta feira pré natal, todo mundo bebe, fica doidão e muita gente vai parar no hospital) era melhor esperar pela ambulância. Regra irlandesa: se você chega de ambulância, corta a fila e vai para o médico, se você chega a pé… vai fazer cadastro, esperar triagem, ser classificado na lista das urgências…e, literalmente, se não tiver nenhum orgão sangrando pendurado para fora, a fila de espera é de no mínimo 8 horas. Já fomos pro hospital e desistimos no meio da espera algumas vezes.

Então, lá vai Aninha carregando o dedo na prancheta ficar quietinha no escritório esperando a bendita ambulância.

Depois de muita, muita espera … 2h30 para ser mais preciso… chegou a bonita. Paramedicos… eu vestida de chef com dedo esquichando sangue passando por dentro do restaurante… todo aquele auê… A paramedica pediu para ver meu dedo, que estava coberto com uma gazezinha ordinária e a cara que ela fez não foi das mais entusiasmadas.

Enquanto ela me amarrava no cinto de segurança, ela perguntou se eu já tinha visto o estado do meu dedo. Eu disse que ainda estava acordada porque não tinha dado essa olhadinha. Ela perguntou se tudo bem ela explicar qual era a situation. Eu pensei: “To sentada, amarrada no cinto, a caminho do hospital, se tem algum lugar que a merda pode acontecer, é aqui.. se eu chegar desacordada, deve que vou ser atendida mais rápido.” Manda bala! Pode falar que eu aguento!

“Bem, sua unha tá solta…” Ela começou… “E a ponta do seu dedo está AMPUTADA. Acho que não tem jeito de recuperar. NINGUÉM nos disse que era essa gravidade de acidente. Alguém ligou para a central e disse ‘Um de nossos chefs cortou o dedo’ até aí, um chef cortar o dedo é coisa do cotidiano. ‘Qual dedo?’ ‘O mindinho’ ‘O sangramento está sob controle?’ ‘Tá sussa’ ‘Então aguenta aí…’ Daí nós fomos pegar uns bebâdos na rua, que na nossa escala de urgência era mais importante. Levamos SEIS e depois viemos buscar você.”

Nessa hora minha coloração já tinha passado por todos os tons de amarelo e verde possíveis… e fiquei lá pendendo e chacoalhando como um manequim sem vida.

Chegamos ao hospital e a cada um minuto vinha um ganso olhar meu dedo, fazia uma cara de super entendido, misturado com sou-empatico-com-sua-dor-então-sei-o-que-estou-falando e dizia “Yeah. It’s gone”

E eu lá com uma cara tipo: “Ah, que legal! Obrigada por me informar”

Depois dessa torturinha fui pra próxima tela. Sim, porque aquilo tava parecendo joguinho do Mario Bross from hell. Vamos ver o quanto ela aguenta e se ganha o cogumelo que permite ela receber algum tipo de tratamento.

Acho que dei os soquinhos certos, porque finalmente fui agraciada com a visita de alguém que mais parecia uma médica. Que depois de uma boa olhada e algumas caras e bocas, disse que precisaria dar uma anestesia local no dedo, para poder limpá-lo e eu teria que fazer um raio X.

Depois de umas duas horas, conseguir passar dessa fase, e outro médico veio olhar o dedo para dar o parecer dele também.

Ele começou assim:

“Você é destra ou canhota?”

“Destra”

“Boa notícia!”

“Você usa sua mão para trabalhar?”

“Bom, sou confeiteira e escritora… então acho que sim”

“Você usa sua mão para praticar seus hobbies?”

Juro que fiquei tentando imaginar alguma atividade que não use as mãos… mas estava vendo que aquela conversa não estava indo por um caminho muito bom.

“Então… no pior dos cenários, você vai perder a ponta do seu dedo. Mas vamos lá. A ponta do dedinho não é lá essas coisas. A gente não usa muito. Você não vai nem perceber que ele não tá mais aí…” E continuou nessa linha de raciocínio por uns dois minutos até que eu o interrompesse.

“Olha, acho que eu entendi essa parte. Mas eu queria discutir a opção de manter o pedaço do meu dedo. Já convivi com ele por 29 anos e meio que desenvolvi uma relação de carinho com ele”

Juro que disse isso.

JURO JURADO!

Daí ele riu de nervoso e continuou:

“Ah, sim, claro. Estava falando do pior dos cenários. Mas a gente vai fazer de tudo para mante-lo”

E parou. Ficou CINCO MINUTOS falando o quanto eu não ia sentir falta do meu dedo. E fala uma frase sobre a genuina intenção de manter the fuck finger!

“So… TELL MORE ABOUT THAT!”

“Então… você VAI PRA CASA AGORA e AMANHÃ de manhã a cirurgiã plástica vai dar uma olhada no seu dedim”

E lá vai eu pra casa com o dedo pendurado… (eles fizeram um curativo xinfrim… mas pra que parar de dramar, né?)

Depois de três horas, lá vai a Ana voltar pro hospital.

A cirurgiã:

Bom… ela chegou atrasada. Não tinha roupa de médica. Foi tirar o curativo do dia anterior com uma tesourinha cega, sem apoir minha mão em lugar nenhum. E mesmo assim, tinha que garrá todas as minhas esperanças nela. Que outra opção eu tinha.

O parecer dela: “Vai ficar tudo bem” Começou ela com as palavras que soavam como música para meus ouvidos. “Seu dedo está meio amputado, sim. Mas ainda tem circulação na parte solta. O que é fundamental. A unha saiu inteira, então a gente vai tentar botar ela no lugar. A ponta do osso tá quebrada, mas é a pontinha. E desde que você não seja uma pandeirista profissional compulsiva, acho que você não vai querer ficar batendo a ponta do seu mindinho a torto e a direito. Eu vou costurar tudo no lugar e você vai arrasar!”

Uhuuuuuu!!! Dedinho is back! Pensei…

Bora arrasar e não vejo a hora de enfiar ele no c… de todo mundo que ficou “It’s gone… it’s gone” Sifu… foi o segundo pensamento…

Mas bora não colocar os carros na frente dos bois, nem dedo amputado no fiofó de ninguém…

A dotora disse que ia ali preparar a sala de cirurgia e já me chamava pra um chazinho e uns pontinhos.

Pois bem… o “já” se transformaram em OITO horas. E às quatro da tarde o centro cirúrgico estava pronto para receber essa presença brasileira, afro, latina, tropical, inesquecível.

Juntei meus panos de bunda, dedo pendurado e fui.

No centro cirúrgico era eu, a dotora e mais quatro assistentes. TODAS mulheres! Fiquei super orgulhosa e feliz… e mesmo dopada, fiz questão de falar o orgulho de estar entre monas poderosas.

Fiz a cirur… Durou uma horinha… eita horinha interminável quando você tá lá acordada… depois de mais de 24h de jejum + exausta por estar trabalhando 14h por dia + ter sofrido um acidente traumático + todo mundo falando que você vai perder um pedaço do seu dedo + ter dormindo por 3 horas + anéstesias que doem pra cacete + médica conversando com a instrumentista sobre seu dedo e girando sua mão pra lá e pra cá.

Depois que acabou a parte do castelo (estamos no Mário, lembra), a Rainha Diva Mor veio falar comigo:

“Intonces. O bicho pegou. Foi mais tenso do que eu tinha calculado. A circulação não tava toda essa maravilha que eu pensei. Soquei a unha no buraco. Bora torcer pra que nasça outra. Ao menos um pedaço pra contar história. Mas tem umas unhas postiças babadeiras que as girls usam aqui… sem crise. Sobre o dedo. Lavei, distorci, costurei tudo no lugar. Agora vamos acender umas velinhas pra que o trem grude. Se não rolar, a ponta do seu dedo vai ficar preta, daí vamos ter que arrancar mesmo. Desculpa aê. Feliz Natal”

E é isso, folks.

Neste momento meu dedo está todo enroladinho.

Vou ir desembrulhar meu presente de Natal dia 29. E “torcer” pra que ela realmente tenha tentado colar. Porque nos meus piores pesadelos, ela já arrancou unha, pedaço de dedo, embrulhou e está rindo malignamente na casa dela, imaginando a minha cara na hora que desempacotar e eu ver o cotoco.

Anyway, torçam por mim.

E depois escrevo mais, porque digitar com nove dedos pra quem é escritora dá trabalho pra cacete e já to com a lombar doendo de tanto ficar aqui de lorota pra vocês.

Vocês querem novidades? Ficam chorando que eu não escrevo?

Agora toma!

E Feliz Natal

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