Aninha Pastry Chef

É, galera, quem é vivo sempre aparece. Não sei o que exatamente significa “sempre” neste caso, mas com certeza não é sobre frequência.
Sim, quase três meses em Dublin. Quase sem dar notícias.
Então sem mais delongas, vamos lá!
Pra variar, o assunto é sobre trabalho.
É, minha gente… emprego, labuta, fatiga, lida, ocupação, dar duro, work, job.
Tudo isso pra ganhar um tutu, uma bufunfa, levantar uma grana, ter dinheiro, verba, tá cheio de moeda, encher o bolso do vil metal, ter uma nota pra gastar, ganhar uns pacotes, juntar pataca, prata, fazer um capital, queimar uma quantia… enfim, tudo aquilo que nós, capitalistas selvagens, já estamos ligados.
E lá vamos nós com as histórias de trabalho da Aninha. É isso mesmo. “Trabaiá” é uma das únicas coisas que a Aninha sabe fazer. Quer dizer, a Aninha sabe fazer um monte de coisa, mas todas elas se resumem em: trabalhar!
A Aninha agora é Pastry Chef! Pra quem não sabe, isso significa que eu faço (e posso comer, consequentemente) um monte de doces, bolos, sobremesas etc. HUUUUMMMM!!!! Podem soltar os cachorros!
E da onde a Aninha… quer dizer, eu (vamos parar com essa palhaçada de falar na terceira pessoa!)… retomando, de onde eu tirei a ideia de ser Chef Confeiteira na Ilha Esmeralda?
Senta que lá vem a história…
Bom, sempre tive uma atração fatal pela cozinha. Fosse pra comer – coisa bem inata mesmo – ou para xeretar minha linda genitora criando delícias e mais delícias e mais delícias.
Pois é, desde que me entendo por gente, sempre tive uma curiosidade de fazer isso e aquilo. E, principalmente, adorava fazer um bolinho, uma sobremesinha que fosse.
Quando estava com 15 anos, caí meio que de pára quedas num curso bem intensivo de confeitaria (a ideia era fazer um curso de secretariado+informática, mas só teria vaga para a próxima turma, então pra não ficar sem fazer nada, me inscrevi no curso de confeitaria + artesanato rsrsrsrs).
Lá eu era a queridinha da professora. Aprendi a fazer pães de lá divinos e sequilhinhos de cair o queixo. Entre outras cositas.
Com 16 comecei o magistério e o empreendedorismo tomou conta de mim… hahahaha… um monte de mulher o dia todo na escola, ganhanhdo uma bolsa pra estudar, com dinheiro, muito hormonio começando a florescer, espinha na cara e vontade de comer doce.
Opa, a Aninha está aqui! Seus problemas acabaram!
Comecei com bolo prestígio. Foi um sucesso de público e crítica.
Depois vi que as pessoas queriam mais, elas novidades. Fui em busca de especialização. Cursos de bolo gelado aos finais de semana.
Ponto!
Mas bolo todo dia não há quem aguente… (quer dizer, tem sim. Mas só os fortes!)
Era hora de avançar. De expandir. Era hora de ter uma sócia. Nada melhor do que uma grande amiga.
Passamos pelo pavê (muito custoso para o nosso público), sanduíche natural (sucesso de vendas, mas muito perecível, trabalhoso, demanda de muito material e muita força nos bracinhos para carregá-los) e finalmente chegamos no chocolate.
Hum… chocolate. Quem não gosta de chocolate? Quem não quer chocolate? Quem resiste ao chocolate?
Primeiros os bombons. Lindos, caseiros, delicados, recheados, suculentos. Chegamos na páscoa, com muitos ovos, corações e encomendas. Até nos aperfeiçoarmos tanto para termos os direito de produzir trufas de chocolate.
Sim, porque a vida não é assim, amiguinhos. Você não pode chegar de maneira leiga na frente de uma barra de chocolate Garoto de 3,5kg e dizer “Belezinha, hoje você vai derreter na minha mão! Vou te esquentar, vou te misturar, vou te transformar e você vai amar!” Nãããããããoooo!!!
Você precisa merecer, aprender, estudar, amar. E aí sim, o chocolate vai cooperar. Vai se modelar. Vai se deleitar. E seus clientes poderão se deliciar!
Fui estudar, minha gente!
Passei fins e fins de semana em cursos, pesquisando, imprimindo receita, testando, experimentando (porque ninguém é de ferro), fazendo pesquisa de mercado, para então chegar num produto de qualidade, com um custo acessível e um sabor inigualável!
Daí era só correr pro abraço.
Dos três anos de magistério, acho que ao menos 1 e meio, dentre outras coisas (grêmio, teatro, campanhas de festa junina, bons seminários e debates) eu era a “Menina da Trufa”.
O que era um ótimo marketing, motivo de orgulho, mas acabou virando um carma.
Um ano depois de me formar, fui à escola buscar meu diploma e quando fui passar em algumas salas pra dar um oi para os professores, as pessoas apontavam e gritavam: “Olha lá a menina da trufa! Você tem alguma aí com você?”
É, grandes poderes, grandes responsabilidades. Foi a lição que aprendi. Você não pode viciar as pessoas no chocolate mais delicioso do mundo e depois simplesmente ir embora, deixando dezenas, centenas, milhares, apenas sofrendo abstinência.
Eu fico imaginando essas meninas até hoje (já na casa dos 30 – olha eu revelando a velhice), com a família. Comendo um chocolate e contando pra todos as histórias das melhores trufas que ela já comeu na vida. Em como ela interrompia uma aula de prova, com o professor na sala, só pra pedir para a “Menina da Trufa” “Só mais uma por hoje, eu juro!” hahahahahahah
Velhos tempos. Boas experiências. Lembranças melhores ainda.
Enfim, todo este trololo, este nhenhenheim, este blábláblá, inclusive, acabei de dar uma fuçada no blog e no post “Carrot Cake” já tem essa mesma história, mas mais resumidinha… hahahahah… sim, seu esqueço o que eu escrevo!
E sim, essa história sem fim é para dizer que “Sim!” Suas experiências de vida podem te ajudar aqui na Irlanda.
No meu caso, é este meu amor de longa data pelos docinhos.
Como está no post anteriormente citado, da última vez que estive por aqui, minha primeira experiência trabalhistica foi numa confeitaria.
Pelas voltas que o mundo dá, não fiquei lá muito tempo. Só umas 3 semanas. Adorava o trabalho lá, mas era longe, eu tinha que pagar Dart e o chinês estava abrindo o negócio e não podia me pagar nem o salário mínimo.
Acabei ficando no mexicano, virei uma Pablo Picante girl e o resto das histórias, de dely em dely, estão nos posts anteriores.
Só que cheguei aqui dessa vez decidida a não trabalhar em dely de novo. Sério, fiquei traumatizada.
E botar a mão na massa, literalmente, era uma das ideias. Por que não?
Daí vem a segunda coisa importante aqui: fale pra todo mundo que você está procurando emprego e o que você quer fazer.
Bem, no primeiro apartamento que fomos visitar conhecemos uma brasileira e conversa vai, conversa vem, eu falei que gostava de fazer doces e tal. E ela comentou que trabalhava num wine bar e que eles estavam procurando uma pastry chef. Eu pensei “Ai, jisuis, eu gosto de fazer uns bolos e tal, mas PASTRY CHEF?” Sim, o nome assusta.
O ap não deu certo (já tinha outro casal pra dar a resposta e os cretinos, quer dizer, os bonitinhos, fecharam).
Ficamos mais duas semanas procurando casa desesperadamente.
Aliás, este é o tema pra outro post. A crise dos aluguéis aqui em Dublin. A coisa tá crítica mesmo.
Mas voltando, neste meio tempo procurando casa, achando casa, mudando de casa, tirando GNIB, eu não estava com cabeça pra procurar trampo. Resolvi deixar rolar.
Umas três semanas depois, encontrei a mesma brasileira no ônibus e ela disse que o restaurante ainda estava precisando.
“Uai, então é pra mim este trem!”. Pedi pra ela o nome do restaurante, refiz meu currículo, caprichei na “Pastry experience”, e sai mandando o cv para todos os emails que estavam no site.
Fui na grafton, imprimi meu lindo CVzinho e no dia que estava planejando ir lá pessoalmente pra entregar… (é, galera, quando encafifo numa ideia, eu perturbo messssssmmmmo). Então, eu iaaaaaaaa lá, pretérito imperfeito do verbo ir, o que significa que eu não fui!
E por que a Aninha não foi (a a mardita terceira pessoa quer reinar, não resisto). Não fui porque me ligaram!
YES!
Eu tinha um teste.
Fui. Gostei. Gostaram. = Trabalho.
A Aninha estava empregada, again.
Fiz o teste dia 04 de abril. Um mês e um dia em Dublin. Da outra vez foi igualzinho.
O restaurante é bem legal.
Estou aprendendo MUITO. Tenho sorte de trabalhar com dois chefs muito responsa e muito gente boa. Um brasileiro e outro das Ilhas Maurício.
Então, galerê!
Anime-se! Aprendam! Usem seus conhecimentos e capacidades mil!
Tira a bunda do sofá e faça acontecer!
#alguemnãomesegure #feliz #empregada #fazendodocepracaçamba

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Pode ser sorte, pode ser azar… Parte VII

Ta tudo muito bom, ta tudo muito bem.
Já comentei sobre o tamanho da minha preguiça para procurar emprego uma vez mais. O que não contei foi que a essa altura já era inicio de Julho. Isso significava que em três meses meu visto acabaria.
Era hora de tomar decisões.
As perguntas eram inacabáveis:
Renovar? Não renovar? Esquecer esse papo operário de trabalhar, ir viajar agora e voltar pra casa? Se renovar, vou ter dinheiro pra pagar curso, visto, ir visitar minha família no Brasil e comprar outra passagem de ida e volta? O que fazer mais um ano em Dublin? Vale a pena? Teria tempo pra estudar de verdade? O que fazer?????!!!!!
Meus miolos fritavam. Não conseguia pensar em outra coisa.
Sai uma ou duas vezes pra entregar currículo. Mas não encontrei nada tão interessante, pra voltar, almejar, pentelhar e conseguir.
Ninguém me ligou. Ficamos por isso mesmo. Só na amizade.
Ate que, depois de ver uma das flatmates da minha ex-casa, chorando de raiva do emprego e do chefe, perguntei se podia levar um currículo lá. Sadoquismo é para os fracos!
Ela foi super fofa e me explicou tudo. Ela trabalhava na praça de alimentação do aeroporto de Dublin. Trabalhavam vários brasileiros lá. Pra variar, né?
O trabalho dela consistia, basicamente, em recolher pratos, passar um pano nas mesas, quando o carrinho estivesse cheio de louças, levar para a cozinha, descarregar tudo para os kitchenporter e voltar para fazer tudo de novo. Existiam algumas posições rotativas. Por exemplo, ficar no café ou no caixa. Trabalhava – em geral – cinco dias por semana, 39 horas. Ela disse que o gerente era um louco que vivia chantageando, humilhando e demitindo as pessoas sem razões aparente. Que ele tinha demitido alguém alguns dias atrás e que ela pensava que não estava precisando de staff. Mas como ele era doido, não custava nada eu ir lá entregar um CV. Sadoquismo é para os fracos, a missão.
A primeira coisa que pensei: “Ao menos não é Deli. Bora lá!”
Fui sem muitas expectativas e entreguei o CV para o irlandês carecão doido. Pra variar, com minha sorte, no dia seguinte ele me ligou. No outro dia fizemos uma entrevista de 3 minutos. E adivinhem? Ele tinha uma posição de Deli pra mim! Uhuuuuuuuuuu!!! Só que ao contrário. Buá!
O’briens. Uma rede bem famosa de sanduíches e cafés em Dublin. Dia do teste. A equipe era formada por um brasileiro (o bendito fruto) e uma brasileira, duas polonesas, uma eslovaca e uma estoniana. Uma polaca e a estoniana eram as “gerentes”. Um lugar pequenino. Mas a cozinha era interligada e a mesma para toda a praça de alimentação. Trabalhávamos todos para a mesma empresa. Tudo limpo, organizado, HACCP, fiscalização regular. Outro mundo do que eu estava acostumada. Minha missão era decorar um menu gigante que ficava atrás de mim, na parede e fazer os sanduíches o mais rápido possível. Hora do lunch time. Um busy, uma fila que não tinha mais fim. Tinha chegado às 8 da manhã e pensei: “Deve que são umas três horinhas de teste”. Fiquei lá até às 16h. Sempre vá preparado pra tudo, quando se trata de um teste em restaurante em Dublin.
No fim do dia, a supervisora perguntou como eu me sentia. Foi no mural da escala e preencheu meus próximos dias. Estava em fase de “teste-treinamento”, mas pelo jeito, tinha um emprego.
No dia seguinte, pressão! Rápido, rápido, rápido. Você precisa trabalhar mais rápido! E uma das gerentes teve a ousadia de me dizer: “Não é o seu primeiro dia, preciso ver sua evolução!” Era o meu segundo dia!!!
O pior, era a Eslováquia girl, era o tempo todo me corrigia. Alguém me ensinava alguma coisa de um jeito e quando estava fazendo, ela aparecia pra dizer que era de outro jeito. Falava na frente do cliente e me deixava morrendo de vergonha. Depois, claro que fiz amizade com a brasileira, e descobri que ela era nova. Tinha umas três semanas que estava lá e já tinha sido ameaçada de ser mandada embora pelo mau serviço. Coitada.
O Summer time tinha acabado de começar. Quer dizer, em algum lugar do mundo já era verão. Não na Irlanda. Ou seja, todo mundo estava indo viajar pra algum lugar quente. Aeroporto abarrotado. Eu era supostamente o reforço para a alta temporada.
Os dias foram se passando, eu fui pegando o jeito da coisa, mas não gostava daquele lugar. Em geral, as pessoas trabalhavam lá infelizes. Todo mundo me perguntava: “Ah, você é nova?” “Sim.” “Tá gostando?” “To conhecendo e você, gosta de trabalhar aqui?” “Odeio esse lugar. Mas preciso pagar minhas contas!” Era a resposta mais comum que recebia.
Até o perfil de brasileiros que trabalhava lá era diferente. Geralmente gente que já estava há mais de um ano em Dublin. Um povo que realmente morava em Dublin. Muitos com namorado (a) ou esposo(a) que também morava em Dublin. Um perfil de imigrante. Pessoas que não viajavam muito. Viviam para pagar as contas, renovar visto, visitar a família no Brasil e voltar. Nunca frequentavam a escola. Tinham um inglês de rua. E eram totalmente submissos ao empregador com suas escalas, mudanças de horários, cortes de horas etc.
Comecei a pensar seriamente e vi que se quisesse renovar meu visto, entraria nessa vida. Não teria condições de dar-me ao luxo de viajar pela Europa, ir pro Brasil, comprar outra passagem, pagar escola, visto etc. Fora que estava apenas começando naquele trabalho, só Deus sabia quando poderia ter férias, ainda mais com tempo suficiente pra ir pro Brasil.
Quanto mais fazia contas, mais via que a vida de imigrante estava cada querendo bater à minha porta. Uma das soluções seria renovar o visto, continuar trabalhando fazendo sanduíches, não frequentar as aulas, perder minha passagem para o Brasil (coisa que muita gente fazia), e quando o gerente falasse que eu podia tirar férias (com menos de uma semana de antecedência) eu poderia ver se era possível viajar pra algum lugar.
Definitivamente, não era isso que eu queria. Não era isso que eu tinha sonhado e planejado para meu intercâmbio. Com menos de 20 dias que estava trabalhando lá, depois de uma crise de pânico e de choro, decidi que não renovaria meu visto. Meus dias de O’briens tinha data exata para acabar: 15 de Outubro. Fim do meu visto. Fim da minha permissão para trabalhar. Não renovaria meu visto.
Sentia-me aliviada por finalmente ter tomado uma decisão. Decidir, definitivamente dói! Como sabia do caráter provisório, comecei até a me divertir com as situações no O’briens. Com uma semana que estava trabalhando, o gerentão me colocou pra fechar todos os dias.
Esse era o terror de todo staff. O pior horário. O trabalho mais pesado. E quem ficava comigo todo dia até antes de fechar? Justamente a Eslováquia girl! Quando cheguei era ela que estava fechando. E desde o primeiro dia, ela ensinou-me como ajudá-la e o que tinha que ser feito para “fechar” o lugar. Eu não parava um minuto. Limpando, atendendo, no caixa, trocando bowls¸repondo as comidas. Tudo. Mas é claro que a situação mudou quando ela sabia que não precisava mais fechar. Que não era responsabilidade dela como a gerente ia encontrar as coisas no dia seguinte. Não seria ela que teria que ficar até uma hora a mais do horário para terminar tudo.
Depois que as gerentinhas iam embora, ela mudava de atitude. Antes, prestativa, rápida, sempre procurando algo pra fazer. Depois das 15h ela simplesmente encostava-se no balcão e esperava aparecer um cliente para ela atender. Se estava muito parado, ela tinha a cara de pau de “ir ao banheiro” e voltar depois de 15 minutos. Eu me irritava, mas até ria da situação. Uma fdp descarada. Mas o que eu podia fazer? Era a novata. Tinha obrigação de ficar calada.
Porem, a brasileira que trabalhava com a gente, e via a situação, ficava revoltada. Comprou a briga pra ela e declarou uma guerra silenciosa conta a Eslováquia girl, ou “Alemoa do pavão”, como ela carinhosamente apelidou a loirinha.
Tudo estava indo nesse ritmo, no primeiro dia que fechei a gerente polaca me elogiou muito. Disse que o restaurante estava brilhando pra ela abrir. Pela primeira vez fiquei feliz naquele lugar. Sou movida a elogios. Ao menos, me sentia fazendo algo útil. E por mais que ficasse depois do horário, ao menos não precisava acordar tão cedo e ficava uma hora sem atender cliente.
Ah, querida, mas a “Alemoa do pavão” estava totalmente decidida a acabar com minha tão disciplinada paciência. Quando a gerente não encontrava as coisas tão perfeitas, costumava perguntar como tinha sido o dia anterior pra pessoa que ficou com quem fecha. Pra saber se tinha sido muito busy , não tinha tido tempo de fazer todas as coisas. E a bonitinha geralmente respondia que “não, não muito busy”. Sendo que quando ela ia embora eu estava no meio de um campo de guerra. Depois ela passou a checar as coisas quando chegava cedo. Acho que ela ficou tão brava que a polaca tinha me elogiado, que ela começou a procurar sujeiras, e coisas pra apontar cada canto com farelo de pão. A gota d’água foi o forno.
O forno era um caso a parte. Eram dois fornos. Serviam para tostar sanduíches e esquentar bagels. Depois do lunch time, desligávamos um forno, esperávamos esfriar, limpávamos, religávamos, desligávamos o outro pra limpar. O objetivo era deixar tudo limpo antes de fechar. Ao menos era uma coisa a menos pra fazer. Geralmente, quem estava com a pessoa que fechava se oferecia pra limpar ao menos um dos fornos. Afinal, quem fecha, tem 9789979 coisas pra limpar. É claro que a “Alemoa” não. Depois que eu comecei a fechar, ela nunca mais limpou um forno. Pois bem. Eu não ligava de limpar. Usávamos um produto corrosivo, era necessário usar uma luvona grossa até o cotovelo, mas o problema é que não tínhamos máscara e o cheiro era extremamente forte. O produto que usávamos acabou e no lugar veio outro que deixava o forno um pouco o opaco. E por mais que você enxaguasse, ele manchava quando o forno era religado. A boazinha, começou a chegar pela manhã e abrir o forno pra mostrar as manchas no forno. Querendo dizer que estava fazendo um serviço mal feito.
Aí me irritei! A cretina não ajuda e ainda quer te f*%&# de qualquer jeito! A brasileira ficou tão nervosa que até tremia. Revoltada de verdade. Senti que precisava fazer algo, nem que fosse mais por ela do que por mim. Esperei um dia perfeito. A última gerente iria embora às 15h, ela iria às 16h e a brasileira ficaria comigo nesse dia até fechar. Quando era quase dez pras 16h, não tinha cliente e era a hora da conversa.
Chamei a branquela na xinxa! Perguntei o que estava acontecendo e por que ela tinha feito aquilo. Peguei as luvas e disse: “Se você é tão perfeccionista, eu não vejo nenhum problema em você colocar as luvas e limpar o forno todo dia!” A bicha ficou pálida e disse que não era nada daquilo, que só mostrou e comentou: “Tá vendo? Quando eu fechava também acontecia isso!” Ah, vá! Falei que não tinha nada contra ela. Mas se, além de não me ajudar, ela estava tentando me prejudicar, eu não teria nenhum problema de fazer algumas reclamações sobre sua postura.
O povo da cozinha escutou a discussão e ganhei até um pouquinho de moral. Eita Ana briquenta, viu! Mas esse povo pede, hein, jisuis!
Depois disso, ela ficou alguns dias sem falar comigo. Depois teve um dia que foi lá, pegou as luvas e limpou o forno. Depois voltou na mesma preguiça. No fim, ela era só folgada. Mas eu conseguia até que trabalhar bem com ela. Bem nas minhas últimas semanas, a gerente estava achando a postura dela muito desleixada e suja e pediu para o gerente colocar ela pra fechar, pra ver se ela ficava mais esperta. Pra mim dava na mesma, já tinha pegado o jeito da coisa. Mas ela detestava fechar. A brasileira achava que justiça tinha sido feita. Tá bom então.
O verão foi acabando e o movimento também. Aos poucos, o gerente foi cortando horas. Em geral e acentuadamente, as minhas e do brasileiro. Primeiro uma hora por dia, depois um dia inteiro. De 39 horas, estava fazendo agora 28. E ele poderia fazer o que ele quisesse, quando quisesse e do jeito que quisesse.
Faltava pouco, o jeito era aguentar. Estava contando com aquele dinheiro. 44 horas a menos no mês fazia diferença, com certeza. Mas durante o verão tinha trabalhado até 6 dias por semana, 47 horas por semana. Tinha ficado totalmente exausta, mas ao menos compensaria um pouco.
Era hora de planejar o que faria. Como voltei para o Brasil em janeiro, tinha uma passagem que valia até o próximo janeiro. Podia trabalhar até meu visto acabar e depois viajar como turista. Na hora de decidir os lugares pra ir, tive que colocar na balança: “finanças + onde não posso deixar de ir + o que quero mesmo ver!”
Por exemplo, a minha sonhada viagem pra a Grécia ficou para uma próxima vez.
Londres era o vizinho que não dava pra deixar de conhecer.
Amsterdam com tulipas, Van Gogh e Anne Frank era o lugar com o qual sonhava desde sempre.
E pra seguir uma dica certeira e não ficar só na Europa tradicional, Budapeste pra fechar.
Parece que estava faltando alguma coisa? E a tal da Itália, dona Ana?
Ah, a Itália era um caso a parte. Sonhava com a Itália. Desde o início do meu intercâmbio, cogitava fazer uma viagem grande pela Itália. Até pesquisei alguns campos de voluntariado para ficar um tempinho.
E como quando a gente se move o mundo se move, surgiu uma oportunidade muito mais incrível de tirar umas “feriazinhas” na Itália.
Tudo decidido. Passagens compradas. Roteiro pronto. So faltava pedir as contas. Pensei seriamente em avisar nos 45 do segundo tempo, os gerentes daquele lugar eram realmente imprevisiveis. Nao podia me dar ao luxo de correr o risco de avisar com duas semanas de antecedencia e ele simplesmente dizer: “Ok. Nao precisa mais vir.” Bastava ele aumentar as horas dos outros staffs.
Mas no fim nao achei justo. Tinha recebido uma oportunidade, os meus colegas de trabalho deviam organizar-se. Avisei com um pouco mais de uma semana de antecedencia. Justificativa era mais que honesta: meu visto iria expirar, nao tinha intencao de renovar e nao teria mais permissao pra trabalhar. Agradeceram os servicos prestados e deixaram eu trabalhar ate o ultimo dia.
Todo mundo feliz. Quer dizer, quase todo mundo. O chefao-irlandes-carecao nao me falou uma palavra. No dia que ficou sabendo da minha demissao e teve que alterar a escala para proxima semana, apenas apareceu no balcao do O’briens. Fez questao de conversar com a estoniana, olhou pra mim e me mostrou os punhos com cara de poucos amigos. O que pensei: “Que profissionalismo!” E sorri. É o melhor que sei fazer na vida.
Se ele ofecereu o que tem: agressividade. Eu ofereco o que tenho: meu sorriso e cara de pau. 😀
O que posso dizer seguramente é que a experiencia no O’briens foi importante pra mim. Principalmente em relacao ao ingles. La tive que praticar ingles na marra. Trabalhava majoritariamente com estrangeiros, entao tinha que me virar. Além disso, atendi pessoas até por mimica. Centenas e centenas de turistas. Cada um com seu sotaque, jeito de pedir as coisas. O maravilhoso sotaque irlandes que me dava vertigens no comeco e depois nao me intimidava pra pedir pra repetir, apontar, falar de outro modo. É dificil, gente!
E tinham os que nao falavam ingles e ponto final. As meninas eram mais malvadinhas e nao faziam questao de ajudar. Eu tentava. Usava meu “vasto” conhecimento em espanhol aprendido no tempo de Pablo Picante. Arriscava umas palavrinhas em italiano, pela convivencia de amigos. O povo tinha fome! Achava maldade nem tentar ajudar. Fiz inumeros sanduiches so por mimica. E às vezes quando ajudava um em espanhol, por exemplo, ele voltava com uma turma de amigos. Falava: “Pede para aquela, ela fala espanhol!” As outras meninas ficavam de bracos cruzados e riam pensando: “Ta vendo? Se f&%$#!”
Mas teve uma certa espanhola de idade um tanto avancada, que um dia perdeu a oportunidade de saborear um delicioso sanduiche preparado por essa bloqueira porreta. Ela chegou, olhou a vitrine – era pos lunch time, estava tudo bem tranquilo – e gritou como se eu fosse surda: “Jamon y queso!”. Sem “bom dia, boa tarde, boa noite” e muito menos algo do tipo “por favor”. Em qualquer lingua que seja! Uma coisa que aprendi é que voce nao precisa necessariamente aprender uma outra lingua. Tente ao menos ser educado na sua! A entonacao e sentimento que voce coloca na sua voz, pode ser entendida independentemente do idioma. Eu soltei um automatico: “Sorry?” E ela gritou ainda mais alto e mais mal educada: “JAMON Y QUESO!” A resposta final foi: “Sorry, I don’t speak your language” E ela saiu achando um desaforo e resmungando. Ficou sem o misto quente, fia! Por favor, caros, sejam educados em qualquer idioma. Thanks! Grazie! Gracias! Obrigada!
Tinhas conversas ilarias com a brasileira que tornou-se minha amiga. Ela me xingava, me apelidou pejorativamente de “Curica”, pois é uma noveleira inveterada. E ainda ensinou as meninas da Polonia, Eslovaquia e Estonia como pronunciar pra me chamar assim também. Trocavamos confidencias em portugues, com um monte de gente envolta sem entender. Ela até gastou uma sessao com o terapeuta pra falar de mim quando disse que ia embora. Senti-me importante, sua galis! Hihi… deixou saudades e boas lembrancas! Desejo tudo de melhor pra ela. E para tantos outros brasileiros (e nao brasileiros tambem) batalhadores que conheci la no Wrights Food Hall.
È, foram sete partes dessa saga trabalhistica. Posts imensos. E nao é pra menos. Dos doze meses que morei em Dublin, trabalhei mais de nove. Foi o que mais fez parte do meu dia a dia. Era onde eu estava a maior parte do tempo. Mas foi bom. Diverti-me. Irritei-me. Aprendi. Aprendi muito. Nao posso dizer que sinto saudades daquela vida. No final sentia que meu cerebro estava diminuindo a cada dia. Trabalho de muito esfoco fisico e nenhum esforco ou desafio mental. Um dos motivos pra eu nao conseguir ver-me fazendo isso por mais um ano. Mas foi uma fase. Uma boa fase. Uma fase que dificilmente esquecerei. A nao ser que sofra um acidente da aviao, va parar numa ilha deserta e nao me lembre nem do meu nome. Nesse caso, sim. Esquecerei. Ué, nunca se sabe, genthem!
Ufa, missao cumprida! Nao, nao dos trabalhos. Do blog.
Agora podemos mudar de assunto, finalmente! Uhuuuuuu!!!!
Sugestoes?
#alguemmedaumaideia

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte V

Tchan, tchan, tchan…
Qual sera que foi o resultado da minha temivel, ameacadora e tempestuosa frase?
Nenhum…
Ela simplesmente foi embora com todo sua arrogancia e em poucos minutos o socio Irish chegou. Perguntou se estava tudo bem e a “Aninha-nao-sabe-esconder-o-que-pensa-e-sente”, disse que sim. Ele insistiu e eu disse o que tinnha acontecido. Ele ficou puto, disse que eu estava fazendo um otimo trabalho e que iria conversar com ela.
Eu nao gosto desses nhem-nhem-nhem em trabalho, mas tem situacoes que sao f…
No dia seguinte ela chegou possuida, dizendo que se eu me ofendi deveria ter ido falar com ela, que brasileiro nao pode queimar brasileiro etc. Fico pensando, ela é brasileira e achava que meu trabalho era “mamao com acucar”, as polonesas eram umas fofas comigo e sempre diziam que nao sabiam como eu aguentava o tranco e tal. E eu deveria fazer o que? Puxar o saco da grossa? Gente é gente. Em toda cultura e nacionalidades tem as que o genio bate e outras nao.
Gostei muito de trabalhar com brasileiro em geral. Essa foi a unica excecao. Pessoal esforcado, que nao tem medo nem preguica de trabalho, ajuda, ensina, orienta em tudo o que é possivel. Mas sempre tem um casinho pra virar um causinho, né?
Meu horario era das 7 às 15h. Claro que era impossivel terminar tudo o que tinha que fazer. Ainda tinha o detalhe: limpar a cozinha porca! No comeco estava indo embora todo dia 5, 6 da tarde. Mas nao tinha como aguentar o tranco. 11 horas em pé numa cozinha com a temperatura de uns 50°C na cuca o dia inteiro, nao é mole nao!
Falei com o Andy e ele colocou uma outra brasileira pra me ajudar. Ela ficava no dely até as 15h e quando eu ia embora ela descia e descascava uns legumes, adiantava algumas coisas e limpava a cozinha.
Tudo poderia ter caminhado pra algum lugar, se os donos nao fossem dois birutas. Eles mudavam de ideia todo dia. O restaurante comecou com uns 10 ou 12 funcionarios. Ate eu achava muito. Mas de uma hora pra outra ele comecou a demitir gente. Demitia 3, testava 1… As meninas do dely super sobrecarregadas. Dai ele simplesmente mudou meu horario para das 9 as 17h. Dizendo que assim nao precisava mais de ajuda e poderia limpar a cozinha. Eu praticamente nao dava conta de fazer o que tinha que fazer entre 7 e 12h, agora teria duas horas a menos.
Ninguem ficava no restaurante. Nenhum dos donos, nem o chef. O restaurante tinha cameras para todos os lados e eles ficavam nos assistindo tipo Big Brother. Depois vinha um dia pra dar “enrabadas” e falar: “Voce esta trabalhando mal!” “Voce é lenta!” etc.
Era bizarro. Uma das pessoas pra quem ele falou isso foi aquela brasileira. Ela ficou furiosa. Vivia dizendo pros quatro ventos que as outras meninas eram lerdas e ela levava o dely nas costas. Imagina ouvir do dono que ela era a lenta! Essa menina chorou, esperneou, chamou o dono pra conversar e falar que ela era boa, sim senhor! Poucos dias depois foi viajar pra Paris, no dia que deveria voltar, telefonou falando que o voo de volta pra Dublin atrasou e o Andy falou que ela nao precisava mais voltar.
E a coisa foi indo por esse rumo.
Quando tinha mais ou menos um mes que estava trabalhando la, tive uma infeccao estomacal. Algo que nunca tinha acontecido em minha vida. Comecei com umas dorzinhas abdominais tipo na quarta-feira. Ate comentei com as meninas do restaurante, mas tudo bem. Na sexta-feira a noite fui pro Boteco Brasileiro, pois ia ter o tal do Caio Castro como DJ. Fui ja moribunda e nao aguentei ficar nem uma hora la.
Voltei pra casa e os proximos dias foram de dor e sofrimento. Tudo que ingeria causava dores insuportaveis no meu estomago e em poucos minutos ia ao banheiro e botava tudo pra fora.
No total fiquei 5 dias podre. O fim de semana e so voltei a trabalhar na quinta-feira. Fui ao medico, tinha receita, atestado e tudo o mais.
Hoje tenho certeza que foi a comida la do restaurante que me fez mal. Nao costumava comer sempre la. Eles nao davam comida. Tinhamos um desconto de 30%, entao ou levava algo de casa, ou comia alguma coisa no Spar que ficava em frente. Mas de vez em quando, pedia pras meninas fazer uma wrap pra mim. Escolhia entre as coisa que estavam mais fresquinhas. Mesmo assim, as condicoes daquele lugar. E principalmente o fato da minha mente ficar pensando isso: “Alguem pode passar mal comendo a comida daqui! Alguem pode passar mal comendo a comida daqui! Alguem pode passar mal comendo a comida daqui!”. Irlandes tem estomago de avestruz. Resultado, quem passou mal? A propria Aninha! Foi um horror!
Ah, quando fiquei doente fui à uma medica polonesa que nao falava ingles! Uma comedia! Mas isso é assunto para outro post…
“O que aconteceu, Ana? Pelamor, diz logo porque esse post ja esta ficando mais comprido que o cabelo da Rapunzel emendado em Faroeste Caboclo e atrelado com November Rain!” (essa nem eu sei da onde eu tirei!)
Ok, leitores preguicosos! Vamos aos finalmentes.
Se voce pensou: “Ufa!” Vou escrever mais 20 paginas, so de raiva!
Brinqs!
Bem, desde quando eu estava no Pablo da primeira vez (em dezembro, eu acho) minha flatmate e eu, compramos ingressos para ir assistir Pearl Jam em Berlin! Ela faz parte do fa clube e tinhamos ingressos para os dois dias de show. Pois bem, os shows eram quarta e quinta. Compramos as passagens indo pra Berlin quarta e voltando sexta. Pois bem, planejamos assim, pois no Pablo eu trabalhava de domingo a domingo e tinha folgas em dias alternados durante a semana. Geralmente duas folgas. Entao pedir uma folga a mais nao seria o fim do mundo e eu poderia trabalhar o fim de semana.
O fato é que nao fiquei no Pablo. E no Chopped eu trabalhava de segunda a sexta. O restaurante fechava aos finais de semana.
Comecei a trabalhar no comeco de maio. O show seria no comeco de julho. Quando estava umas duas semanas la, ja avisei sobre minha viagem. Disse que precisaria ficar tres dias fora, expliquei toda a historia anterior e tals. Falei primeiro para o Brian (o socio Irish, que depois descobri que nao apitava nada) e depois, na frente do Andy, lembrei o Brian de avisar o Andy. E ele explicou tudo.
Ok. Aviso pra mim é aviso. E assim continuamos nossos dias felizes, trabalhando na cozinha porca e sem nenhum supervisionamento.
Ate que chegou a semana anterior a minha viagem. A essa altura do campeonato, o Rory de vez em quando aparecia pra mexer numa coisa outra na cozinha. Eu aproveitei e avisei pra ele tambem sobre minha viagem. Alguns dias antes da minha viagem o Slav pediu as contas. O Andy pediu a eles alguns dias para testar e treinar um substituto. Os dias se passavam e ninguem fazia nada sobre colocar alguem no meu lugar, nao sabia se o Rory viria, ou sei la o que. Por coincidencia, na vespera da minha viagem foram dois chineses fazerem testes. E um deles continuaria indo nos proximos dias. Melhor assim. Afinal, a cozinha era tao pequena e tumultuada que nem dava pra trabalhar tanta gente mesmo. Avisei pela ultima vez o Rory (pois era a unica pessoa responsavel que estava la) na vespera da minha viagem e fui tranquila.
Fui, assisti a dois shows incriveis do Pearl Jam. Na segunda noite ficamos na primeira fila, na grade mesmo! Quase no fim do show o guitarrista pulou do palco e fez um solo de guitarra olhando nos olhos da minha amiga! Foi o maximo!
Passeamos um pouco por Berlin. Tudo bem corrido e superficial, mas deu pra perceber quao moderna, cosmopolitana e “pra frente” é aquela cidade. Gostei muito!
Cheguei em Dublin na sexta feira a noite. E nao foi muita surpresa quando no domingo o Andy me liga e pergunta o que aconteceu. Eu disse que estava na Alemanha, ué! E ele teve a “cara-de-pequeno-pau-chinaman” de dizer que eu nao tinha avisado. Ah va!
Eu tentei explicar, disse que ja tinha avisado fazia mais de um mes, para os dois donos e na véspera avisei para o chef de cozinha. Ele disse: “Quinta-feira voce pode vir pegar o seu cheque, mas nao precisa vir mais!”
Ah, fiquei muito brava! Disse a ele que se ele nao precisava mais dos meus servicos, tudo bem. Mas que nao justificasse falando que eu nao havia avisado. Ele disse que eu tinha que relembra-lo, que ele era muito ocupado e nao tinha obrigacao de lembrar. Eu soltei um “ocupado eu nao sei, mas desorganizado, com certeza! Como voce pode administar um restaurante desse jeito?” Ele respondeu algo do tipo: “Eu sou o dono e faco o que quiser!” “Por isso aquele lugar vai de mal a pior! E adeus!”
Liguei para a outra funcionaria brasileira que tambem estava planejando viajar, para falar pra ela avisar 57 vezes pra nao correr o risco e ela solta: “Tarde demais, ele ja me demitiu na sexta-feira!”.
Resumindo, ele demitiu todas as brasileiras e comecou a contratar um monte de chines. Tudo bem. Se voce prefere trabalhar com quem é da sua cultura, eu nao vejo nenhum problema. Mas inventar motivo pra te despedir, ah isso nao admito. Enfim, mais uma experiencia para o CV. Mais uma historia pra contar.
Uma parte de mim gostava de trabalhar la. Nao sei exatamente o porque. Acordava às 5 da manha, chegava em casa totalmente destruida. Nao tinha forca pra fazer mais nada. Era pesado, puxado, nao tinhamos horario de intervalo. Apenas 15 minutos pra engolir alguma coisa. Ficava no minimo 8 horas em pe. Um calor de matar. Chegava em casa totalmente defumada. Meu cabelo, minha roupa, ate minhas meias e calcinhas cheiravam a tempero. Mas gostava de passar um tempo com minhas comidinhas. Picar, temperar, cozinhar. Sentia-me util e realmente fazendo algo de novo e interessante. Aprendi muito e imagino se fosse uma cozinha organizada e com um chef de verdade pra me orientar o quanto mais poderia ter aprendido.
É claro que valeu a experiencia.
Na verdade, foi a primeira vez em Dublin que pensei sobre meu trabalho. Ficava no caminho, em casa, até durante a ducha, pensando em como organizar melhor meu dia. Buscando solucoes e fazendo cronogramas hora a hora pra fazer um trabalho mais limpo, organizado e correto.
E bora la bater perna de novo… fico cansada so de lembrar quando… quer dizer, isso é estoria para o proximo post.
Quem leu esse até o fim, parabens! Dessa vez eu me superei. Meus dedinhos estao ate doendinhos… por isso dividi em duas partes.
So pra adiantar, o proximo emprego foi o ultimo, ok?
Ufa!
Inté!
#alguemmecarregue!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte II

No primeiro dia que saí pra entregar os currículos deixei um num pequeno restaurante mexicano numa vielinha perto do Stephen Green Shopping Centre. Nunca imaginaria que esse CV daria tanto pano pra manga!
No mesmo dia que deixei o CV com o Sky, o gerente do Pablo Picante me ligou. E eu não entendi quase nada! Sabia que era emprego, que ele queria marcar uma entrevista. Mas não entendia o nome do lugar, o local, o dia e quiçá o horário! Facinho assim!
Implorei pra que ele mandasse um sms com os dados que eu iria anyway. Ele concordou (eu acho rsrsrs) e ficou por isso. Na verdade tinha entendido alguma coisa sim… tomorrow… afternoon…
Que seja. Tomorrow chegou e nada do sms chegar. Resolvi retornar pro mesmo número e dar uma de louca. Afinal, não tinha nadica de nada a perder. Só que liguei mais ou menos 13h30, o que não sabia era que esse é o pico do lunch time! Uma mulher atendeu-me. Apressada. Parecia que uma guerra desenrolava-se ao seu redor. Ela perguntava sobre o meu “appointment”, com quem, que horas. E disse que ia deixar um recado com o gerente. Ih, miou! Pensei…
Se miou, só pode ter sido um gato preto da sorte. Porque em menos de uma hora recebi uma mensagem com todos os dados. Inclusive orientações tipo “Google” pra achar o lugar. Iupi!
Fui, fiz a entrevista. Quer dizer, balancei a cabeça afirmativamente quase o tempo todo e sorria. “Burritos, busy, team, hardwork…”. Novamente o CV. Ele apontou e disse: “Você tem experiência com pizza” e eu continuava balançando a cabeça afirmativamente. Ele disse: “Então acho que não terá problemas com a wrap”. Jisuizinho, o que será que ele quis dizer com isso? Era o que eu perguntava-me. “Test, tomorrow…” Opa, é nóix, chefia!
Fui, fiz o teste. Duas horas de teste, depois do lunch time. Muita coisa pra aprender. A primeira surpresa boa: brasileiras! Ufa! As meninas explicaram-me como ler o pedido, como esquentar a tortilla, como enrolar o burrito, como manter tudo limpo. Tudo. Galera muito gente boa, do bem.
Depois desse dia fiz mais dois testes. Lá o negócio era sério, tipo primeira fase, segunda fase do vestibular… kkkkk… Nesse período continuei indo trabalhar pro Sky quando ele chamava-me. E tinha o orgulho de dizer: “Um mês em Dublin e dois empregos!”. Brinca!
O teste final, tipo a banca de TCC, foi o dia do lunch time! O temido lunch time! E pra melhorar, sexta feira – o dia mais busy de todos – e… o gerente estava numa miniférias e quem estava trabalhando no lugar ele era o DONO do restaurante. Nada podia sair errado. Tensão, ansiedade, desespero, arroz, feijão, carne e pimenta para todos os lados. Gente, gente, gente! Como um lugar tão pequeno podia atrair tanta gente? Não sei, mas o bicho pegou.
Minha tarefa: fazer a entrega dos burritos. Consistia basicamente em tirar o burrito pronto da chapa, enrolar numa folha de papel alumínio que ficava sobre uma tabua quente, olhar o ticket do pedido, checar que era pra comer lá ou “take away”, gritar o número e entregar. A pessoa que fica nessa posição também é responsável por checar as “bowls”. Recolhe-las das mesas, limpar as mesas, colocar as “bowls” na máquina de lavar, tirar, secar, colocar os guardanapos e manter o sistema funcionando. Tudo seria muito fácil se o burrito não fosse um troço fechado o qual não é possível checar o conteúdo a não ser dando uma dentada. Ou seja, a ordem dos tickets era de importância vital. Caso fosse entregue um único burrito errado, isso poderia comprometer toda a sequencia seguinte. Atenção, agilidade e garganta. É, porque gritar números em inglês num lugarzinho apertado e cheio de irlandeses famintos e conversadores não é mole não.
Gritei, entreguei e passei! Ao final do lunch time nenhunzinho burrito entregue errado e o “job” era meu! Escala semanal, salário mínimo, city Center, refeição no restaurante “for free”, voltar pra casa a pé. Não teve jeito, tive que explicar pro Sky a situação e até coloquei-me a disposição nos meus dias de folga. Ele respondeu, desejou-me sorte e ficou por isso mesmo. Tchau bolinhos e comidinhas bonitinhas. Olá comida mexicana apimentada da peste! Trabalhei, trabalhei e trabalhei!
Nas primeiras semanas chegava em casa todo dia quase chorando de dor. Um corpo sedentário que não estava acostumado a fazer serviço pesado por 6, 7, 8 horas por dia, sofria. Meu dia começava às 9h da manhã quando ia pra escola, escola direto pro Pablo e terminava quase às 22h, quando fechávamos o restaurante.
Fechar um restaurante. Uma verdadeira corrida maluca! Centenas de coisas pra fazer e 30 minutos de tempo. Era assim: “1, 2, 3… valendo!”. Recolher louças, lavar, limpar, limpar, limpar, esfriar comida, recolher lixo, limpar mais, guardar, fechar, desligar, checar. Tentávamos adiantar o máximo possível antes de fechar propriamente. Mas nem sempre era possível. E mesmo assim terminávamos pelo menos 15 minutos depois do horário. Dependendo da dupla, meia hora, ou até mesmo uma hora depois. Trabalhar de graça. Não é divertido.
Quando reclamava das dores e cansaços pras meninas, elas diziam que era “normal”, todas tiveram essa fase. E que em um ou dois meses meu corpo se acostumaria. Um ou dois MESES?
Ai entrava a parte da pegadinha novamente: em dois meses estaria embarcando para as terras tupiniquins, mais conhecidas como Brasil. Minha pátria amada, idolatrada, salve, salve…
Como assim, Aninha? Como assim o caramba! Se você é um leitor inveterado deste blog, não tem nada de ficar perguntando isso, porque já sabe. Caso tenha caído de paraquedas agora, clique aqui. Blé!
Intonces, desde que eu comecei a trabalhar no Pablo, sabia que teria que pedir minhas contas em dois meses. Comecei a procurar emprego mais no “vamos ver o que que dá!” e agora teria a oportunidade de juntar uma bufunfinha e ter uma experiência real na Irlanda quando voltasse do Brasa.
Resumindo: quando minhas dores estivessem próximas do fim, eu vazava. Simples assim.
No começo pensei em pedir as duas semanas pra ir pro Brasil, mas depois vi que o gerente fazia uma novela mexicana pras “staffs” que já estavam lá há um tempão e realmente precisavam de férias. Imagina pra mim que mal tinha começado. No fim, resolvi emendar minha viagem pro Brasil com mais duas semanas e meia de viagem pela Europa e só depois procurar outro emprego. No começo de janeiro avisei o gerente, iria viajar no final do mês. Ele surtou! Hahaha… foi hilário! Pra dizer o mimino! Ele ficou inconformado! Disse que tinha me treinado, me dado uma oportunidade, gasto tempo e dinheiro pra formar uma funcionária e agora eu ia embora assim? E que eu não estava dando tempo hábil pra ele encontrar outra funcionária pra substituir-me! Um mês? Por favor, a linha de produção fordiana de burritos não é a coisa mais difícil do mundo que eu já fiz!
Não pude deixar de comparar, quando avisei no meu trabalho no Brasil que estava indo fazer meu intercâmbio, foi com o mesmo um mês de antecedência. E na ocasião o que ouvi foi “Obrigado por tudo e boa sorte!”. E vamos dizer que, convenhamos, meu trabalho era um “pouquinho” mais complexo do que fazer burritos. Por aí começamos a tentar ver as coisas como “diferenças culturais”. Hehe…
Mas o mais hilário foi quando tentei explicar que era o casamento da minha melhor amiga e eu não podia perder e tal… Ele interrompeu-me e disse: “Não, não, Ana! Eu não admito!”. Fiquei muito braba e soltei um: “Desculpa. Eu não estou pedindo sua autorização! Estou avisando-o pra que você possa encontrar outra pessoa ou o que quiser. Mas eu estou indo, não é uma questão de você deixar!”. Depois disso acho que ele ficou quase uma semana sem nem cumprimentar-me direito. Mal criado!
Uma das coisas boas do Pablo era o bom clima entre os staffs. O Sean é esperto e contrata sempre garotas latinas. Majoritariamente brasileiras e mexicanas. Povo que gosta de trabalhar pesado, não é de reclamar, dá um clima pro restaurante (mexicano!) e entre time. Conversávamos praticamente o tempo todo em um “portunhol”, até pra que o Sean não entendesse nossas besteiras. Ele não ligava. Falava que desligava os ouvidos pra gente. Desde que o trabalho fosse feito, e bem feito, ele queria era que a gente falasse sobre o que quiséssemos. Ponto positivo. Pois depois eu descobri que nem em todo lugar era assim. Ah não mesmo!
O ponto negativo era esse paternalismo, essa necessidade de pedir tudo cheio de tato, a falta de profissionalismo. Não dava pra chegar nele como profissional e falar uma coisa e pronto. Ele queria dengo, um pouco de puxa-saquismo e isso me irritava.
Outra coisa: prática de inglês: zero! Não forçava meu cérebro a praticar, pensar, construir frases em inglês. Resultado: quando o gerente ou algum cliente vinha falar comigo, ficava completamente insegura e enrolava-me toda.
Mas pra primeiro emprego, sem inglês, tive muita sorte. Como tanta gente costuma dizer.
Ué, sou sortuda mesmo! Não entendo essa surpresa das pessoas! Eu acho esquisito algumas pessoas serem tão azaradas e ficarem repetindo isso como se fosse um motivo de orgulho! Rsrsrsrs… vai entender…
Sortuda só, não! Cara de pau também!
Por que cara de pau? Não perca o próximo capítulo da saga: “Pode ser sorte, pode ser azar…” nessa mesma hora e nesse mesmo canal. Tchau!
#alguémnãomesegure!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte I

Pode ser sorte, pode ser azar… estória antiga que conheci num treinamento da Folha de São Paulo, ministrado por Massaru Ogata em 2006 ou 2007… eita, estou ficando velha! Lembro-me dessa estória quando as pessoas me diziam: “Você eh muito sortuda! Conseguiu empregos em Dublin muito rápido!”. Quando a realidade de muitos estudantes não eh a mesma. Eh verdade, nunca tive problemas para CONSEGUIR emprego, já NOS empregos… ai eh outra historia… hihi… Bem, agora que acabou eu posso dizer que aquela frase é real: “um dia você ainda vai rir de tudo isso!” HA HA HA! Um ano em Dublin. 9 meses trabalhando. 4 empregos diferentes. Um tipo de estabelecimento: restaurante. Não foi um ano fácil. Foi um ano que aposentei minha massa cinzenta e botei pra trabalhar esse corpinho. E volto a dizer, não foi fácil! Mas foi o que fez com que eu pagasse minhas contas, aluguéis, comidinha, passeinhos e claro, meu tour pelas zooropa! O meu primeiro emprego foi o mais tudo: O que mais gostava o trabalho. O patrão mais fofo. E o que acabou mais rápido. (talvez o último motivo seja a razão para os dois primeiros 😉 ) Arranjei um emprego numa confeitaria em DunLaoghaire quando estava apenas 20 dias em Dublin. Um conhecido falou que seria interessante colocar minha experiência com confeitaria no meu currículo, e colocar inclusive alguns exemplos do que eu sabia fazer. Alguns tipos de torta, bolos etc. Dica dada é dica seguida! Uma amiga e eu decidimos ir procurar emprego, o primeiro dia em Dublin, city centre. E no dia seguinte, resolvemos arriscar nossa sorte um pouquinho mais longe. E chegamos a DunLaoghaire. Chegar lá é relativamente fácil, basta pegar o Dart sentido Bray (Connoly Station ou Tara Station). Concentramos-nos nos cafés, restaurantes e confeitarias. Pois era o “tipo” de currículo do dia. Pra ser sincera, era o tipo de serviço que eu (sem inglês e recém-chegada) tinha mais segurança de colocar no currículo que tinha experiência. Porque na verdade, eu tenho. Não naqueles estabelecimentos que estavam no meu currículo, tipo Amor aos Pedaços. Mas sou uma boleira de mão cheia. Na adolescência fiz curso de confeitaria, depois realmente comecei a vender bolos durante o magistério. De bolo passei para chocolates, daí fui fazer uns cursos livres de como trabalhar com chocolate, ovos de páscoa, trufas etc… Além disso, minha mãe é mineira, cozinheira, pão-de-queijeira, panetoneira, ovo-pascoeira, salgadeira, boleira, doceira… ela é mesmo uma guerreira! De tudo um pouco já saiu da cozinha da dona Débora. Seja para os estômagos famintos de sua prole, ou para os lares insaciáveis e pagantes, que ajudavam no orçamento da família. Eu como uma curiosa inveterada, passei boa parte da minha vida xeretando o que dona Maria aprontava na cozinha. Xerentando e ajudando, sejamos justos! Botar a mão na massa – literalmente – sempre foi comigo mesmo! E claro, depois dar uma provadinha! Afinal, ninguém é de ferro. E essa minha carinho redondinha de trakinas não nega! Hehe Enfim, voltando para Dublin… Vi uma plaquinha pedindo staff. Entrei e era uma confetariazinha bem fofinha (aí como estou desmunhecando com esses diminutivos, mas hoje está irresistível usá-los). Entreguei meu currículo pro Chinaman que estava lá e tentei apontar em meu currículo minhas qualidades perfeitamente compatíveis com aquele lugar bonitinho. Ele balançou a cabeça com cara de poucos amigos e se soubesse falar português teria dito: “Ok. Vaza!” Eu não sabia inglês, ou chinês, mas sabia ler “cares” (a arte de leitura de caras), fechei minha pastinha com meus currículos e… vazei. Encontrei minha amiga e enquanto estávamos decidindo o que fazer, se casávamos ou comprávamos uma bicicleta o chinaman apareceu na porta da confeitaria e chamou-me. Eu voltei e ele perguntou meu nome apontando no CV. Era a primeira coisa escrita em letras maiúsculas, negrito e total destaque, mas beleza… eu que estava pedindo emprego, ele podia ver ou não o que ele quisesse. Mostrei e ele perguntou se eu podia fazer um teste no dia seguinte. Pedi um momento, abri a agenda, olhei meus horários no cabeleireiro, manicure… talvez eu pudesse remanejar aquela massagem com pedras quente. Ah, não sei não, estava precisando relaxar… Brincadeirinha, blá! Disse: “Yes, Yes, Yes… tomorrow!” Tomorrow chegou e lá fui eu, com a cara e a coragem. Sem saber falar nem “farinha de trigo”, but… Daí claro, mais um fato tosco… Desde quando eu tinha saído do hostel e mudado pra minha casinha, falei pras pessoas que conhecia que era boleira e tals… e um pedido frequente era Bolo de Cenoura! Já tínhamos planejado uns dois dias de fazer o tal bolo, mas nunca casava de todo mundo poder ir no mesmo dia. Tudo bem, oportunidades não faltariam, pensava eu. E o que isso tem haver com meu teste. Tudo! Como sempre, o mundo é cheio de gracinhas com a Aninha. Cheguei na bakeryzinha o chinaman, que naquele dia descobri que chamava-se Sky (ele falava o próprio nome e apontava para o céu, hilário!). Meu novo boss pegou meu currículo e apontou uma coisa nele e disse: “Make me a carrot cake!” F…! Missão dada é missão cumprida! Fiz! Sem liquidificador, sem preparação prévia, sem saber os nomes dos ingredientes, sem respirar! Ralei as cenouras no ralador, bati tudo na batedeira e orei pra que desse certo! Enquanto o bolo assava, Sky mostrava-me as coisas na cozinha. Uma bela e espaçosa cozinha. Levou-me pra confeitaria e explicava-me o nome de cada doce, quanto custava etc. O bolo ficou pronto e deu certo! Ele perguntou se eu costumava cobrir com alguma coisa ou se estava pronto pra servir daquele jeito. Eu tentei explicar que fazia uma cobertura de chocolate. E cadê o leite condensado? Inexistente. Encontrei um “evaporated Milk”, perguntei se tinha chocolate em barra e tentei fazer um recheio de trufa improvisado. Botei em cima, raspei um pouco de chocolate pra fazer uma graça e disse: “É mais ou menos assim…”. Ele disse: “ok.” Cortou as fatias do bolo e COLOCOU-O NA VITRINE! Jisuis! Por essa eu não esperava! Depois dessa, o job era meu! Iuhuuuuuu! Ele ensinou-me a fazer scones (um tipo de bolinho amanteigado e às vezes com uva passa, muito popular na Irlanda), quiches, pork-roll, uns muffinzinhos cobertos com uma pasta de açúcar (Irish people like this! Sky dizia enquanto mostrava-me), um bolo de amêndoas, um tipo de doce feito com biscoito (tipo biscoito Maria) mel e chocolate derretido. Fiz muita massa para torta! E passava horas abrindo com o rolo e cobrindo as formas. Deixava tudo empilhadinho na geladeira, depois era só encher com o recheio de maçã, ou com o quiche. Na contramão ele usava meu CV como uma bússola. Taí um perigo de mentir no CV. Não é só o caso de conseguir o emprego. É o fato de saber fazer ou não o que você botou lá! Todo dia ele queria que eu fizesse uma coisa que estava no currículo. Hoje bolo de frutas, amanhã sua torta de maçã, pão de ló etc. Ele era muito curioso e queria aprender tudo que eu fazia. Era divertido. E porque não deu certo, Aninha? Bem… infelizmente nem tudo são flores. Ele estava começando o negócio, disse que tinha acabado de abrir e estava gastando muito dinheiro lá. Só podia pagar-me 7 euros por hora (lembrando que o mínimo na Irlanda são 8,65) e eu precisava pagar mais de 4 euros por dia só de Dart. Fora que eu não tinha um horário fixo, ele chamava-me quando precisava. Para trabalhar por 4 ou 5 horas. Às vezes de manhã, às vezes a tarde. E eu tinha explicado pra ele que estava estudando e poderia mudar meu horário de aula, se necessário, mas apenas uma vez. Enfim, eu poderia continuar levando desse jeito por um tempo. Estava gostando e aprendendo bastante. Gosto de confeitaria e comidas bonitinhas. Adoro aprender e ensinar também, por quê não? Mas o fator determinante chama-se “Pablo Picante”. Eeeee… Mas isso já eh estória para o próximo post. Afinal, um emprego que durou menos de duas semanas já me fez escrever esse tantao! Ate mais e #alguemmesegure