Pode ser sorte, pode ser azar… Parte III

Pois é… Fui pro Brasil. Voltei pra Dublin. Fui pra Portugal. Visitei a Espanha. Dei um role em Paris. E voltei pra Dublin de novo. E precisava de emprego.
O que acontece? Acontece que durante minha viagem “um passarinho me contou” que o Sean estava doido atrás de “staff”. Não tinha parado ninguém lá na minha ausência e todo mundo estava sobrecarregado de horas. E sabe o que mais? Eu tinha o cheque da minha última semana pra buscar.
Bora lá. Cheguei, e encontrei o querido gerente varrendo o chão. Sinal claro que a coisa estava feia. Iuhuuuuu!!! Falei que estava lá pelo cheque. Ele buscou. Eu recebo e sem dar meia volta digo que estou de volta e procurando emprego. Ele fechou a cara, disse que o deixei com sérios problemas quando fui embora “daquele jeito”! Vai saber “que jeito”, mas mais uma vez eu estava lá pedindo emprego, então só balançava a cabeça afirmativamente. Depois de uns minutos de resmungação eu já perdi a paciência e soltei um: “Ok, Sean. Just in case”. Já estava indo embora quando ele me chamou de volta e perguntou: “Posso pensar sobre o assunto?”. Of course, my dear!
Pensar, o bicho estava desesperado. Volto pra casa lentamente. Passo na perfumaria pra ver o que há de novo na nossa Drublim e de repente, não mais que de repente, meu telefone começa a tocar. E é o nosso bom e velho amigo Sean de sempre. Ao menos dessa vez eu consegui entender que ele queria conversar comigo no dia seguinte.
Pimba! Ok. Você pode voltar. Estou de olho em você. Não faça novamente isso comigo. Preciso contar com você. Uma ladainha sem fim.
Sem fim mesmo! Não podia imaginar que o ambiente mudaria tanto na minha volta. O homem surtou. E surtou pra cima de moá!
Coitado do homem! Ficou chateado comigo e quis bancar o vingativo. E inventou o jogo: “tudo-o-que-acontecer-de-errado-é-culpa-da-Ana”.
Tudo mesmo! Não sou de ter mania de perseguição, mas eu dava risada de tão absurdo.
Exemplos, Ana! Porque sei que você gosta de dar uma de louca também!
Voilá! Mesmo se eu estivesse na primeira posição e a pessoa da última entregasse um burrito errado, a culpa era da Ana.
Caso o restaurante estivesse ultra-mega-power-busy e todo mundo estivesse “dando o sangue” pra ir rápido, mas mesmo assim a fila persistisse. Ah, a culpa é da Ana que é lenta.
A comida acabou antes de o dia terminar? A culpa é da Ana!
E o tempo todo cobrança que eu era lenta, que eu precisava ser mais rápida. Ficava tentando entender como podia ter regredido, mas o fato era esse e pronto.
Perguntava pras meninas se estava assim tão lenta e tal e todas diziam que não. Mas a verdade é que voltei pra lá meio a contragosto. Mais por medo de não encontrar outro emprego do que por morrer de amores. E não gosto de fazer isso. Sou a doida que precisa fazer o que dá na telha. E sou muito transparente. Tenho certeza que o gerente sentia minha insatisfação. Aliás, ficava resmungando o tempo todo em “portunhol”. E palavras mesmo quando não compreendidas no significado literal, imprimem alguma impressão, sensação, vibração.
Enfim… eu acredito nisso. Ele somava minha insatisfação com os problemas. Eu era a culpada. Até que ele não estava tão errado. Ter uma funcionária insatisfeita contamina todo o time. E eu estava fazendo um bom trabalho… afinal, eu sempre trabalho direito! Seja para o bem ou… hihi…
A gota d’água foi quando pedi quatro dias para viajar. Com antecedência… puxando o saco… fiz tudo direito. Ele deu. Depois que eu já tinha tudo planejado, ele tirou uma dia. E lá vai a Ana mal agradecia de novo. Falar que agora já tinha planos, passagem e tudo. Que precisava do dia e pronto.
Um ou dois dias antes da minha viagem aconteceu o lance da acabar comida no meio da tarde. Na véspera da minha folga pra viajar fui trabalhar. Trabalhei todo o “lunch time”, depois o bonitão chama-me e diz que está insatisfeito com meu trabalho. Que quando ele deu-me uma nova oportunidade eu teria que provar mais que 100% pra ele e não era isso que eu estava fazendo. Eu não pude controlar um risinho nervoso engasgado na garganta. “Posso ir embora agora?”. Foi tudo o que perguntei. Agradeci pela oportunidade e fui embora. Agradeci e agradeço, de verdade. Ao total foram quatro meses de trabalho duro, aprendizado, diversão (por que não?) pagamentos em dia e burritos todo dia. Mas a partir dali não dava pra seguir. Eu estava insatisfeita, ele estava insatisfeito. Fim da relação.
Fiquei pensando, eu não deveria ter feito um escândalo?! Se quando eu avisei minha demissão com um mês de antecedência não foi suficiente, imagina demitir-me após o “lunch time”? Mas tudo bem. Tem um famoso ditado que diz: “quem pode, demite na hora… quem não pode, avisa com antecedência…”. Acho que não era exatamente assim, mas só me vem isso à mente agora e ideia é essa.
E agora o que sera dessa lokinha em Drublin?
So festa, balada e diversao? Ou morrer de fome na Europa?
O restante da historia voce acompanha neste mesmo canal, sem garantia de hora. Fui!
#ninguemestamesegurando

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Pode ser sorte, pode ser azar… Parte II

No primeiro dia que saí pra entregar os currículos deixei um num pequeno restaurante mexicano numa vielinha perto do Stephen Green Shopping Centre. Nunca imaginaria que esse CV daria tanto pano pra manga!
No mesmo dia que deixei o CV com o Sky, o gerente do Pablo Picante me ligou. E eu não entendi quase nada! Sabia que era emprego, que ele queria marcar uma entrevista. Mas não entendia o nome do lugar, o local, o dia e quiçá o horário! Facinho assim!
Implorei pra que ele mandasse um sms com os dados que eu iria anyway. Ele concordou (eu acho rsrsrs) e ficou por isso. Na verdade tinha entendido alguma coisa sim… tomorrow… afternoon…
Que seja. Tomorrow chegou e nada do sms chegar. Resolvi retornar pro mesmo número e dar uma de louca. Afinal, não tinha nadica de nada a perder. Só que liguei mais ou menos 13h30, o que não sabia era que esse é o pico do lunch time! Uma mulher atendeu-me. Apressada. Parecia que uma guerra desenrolava-se ao seu redor. Ela perguntava sobre o meu “appointment”, com quem, que horas. E disse que ia deixar um recado com o gerente. Ih, miou! Pensei…
Se miou, só pode ter sido um gato preto da sorte. Porque em menos de uma hora recebi uma mensagem com todos os dados. Inclusive orientações tipo “Google” pra achar o lugar. Iupi!
Fui, fiz a entrevista. Quer dizer, balancei a cabeça afirmativamente quase o tempo todo e sorria. “Burritos, busy, team, hardwork…”. Novamente o CV. Ele apontou e disse: “Você tem experiência com pizza” e eu continuava balançando a cabeça afirmativamente. Ele disse: “Então acho que não terá problemas com a wrap”. Jisuizinho, o que será que ele quis dizer com isso? Era o que eu perguntava-me. “Test, tomorrow…” Opa, é nóix, chefia!
Fui, fiz o teste. Duas horas de teste, depois do lunch time. Muita coisa pra aprender. A primeira surpresa boa: brasileiras! Ufa! As meninas explicaram-me como ler o pedido, como esquentar a tortilla, como enrolar o burrito, como manter tudo limpo. Tudo. Galera muito gente boa, do bem.
Depois desse dia fiz mais dois testes. Lá o negócio era sério, tipo primeira fase, segunda fase do vestibular… kkkkk… Nesse período continuei indo trabalhar pro Sky quando ele chamava-me. E tinha o orgulho de dizer: “Um mês em Dublin e dois empregos!”. Brinca!
O teste final, tipo a banca de TCC, foi o dia do lunch time! O temido lunch time! E pra melhorar, sexta feira – o dia mais busy de todos – e… o gerente estava numa miniférias e quem estava trabalhando no lugar ele era o DONO do restaurante. Nada podia sair errado. Tensão, ansiedade, desespero, arroz, feijão, carne e pimenta para todos os lados. Gente, gente, gente! Como um lugar tão pequeno podia atrair tanta gente? Não sei, mas o bicho pegou.
Minha tarefa: fazer a entrega dos burritos. Consistia basicamente em tirar o burrito pronto da chapa, enrolar numa folha de papel alumínio que ficava sobre uma tabua quente, olhar o ticket do pedido, checar que era pra comer lá ou “take away”, gritar o número e entregar. A pessoa que fica nessa posição também é responsável por checar as “bowls”. Recolhe-las das mesas, limpar as mesas, colocar as “bowls” na máquina de lavar, tirar, secar, colocar os guardanapos e manter o sistema funcionando. Tudo seria muito fácil se o burrito não fosse um troço fechado o qual não é possível checar o conteúdo a não ser dando uma dentada. Ou seja, a ordem dos tickets era de importância vital. Caso fosse entregue um único burrito errado, isso poderia comprometer toda a sequencia seguinte. Atenção, agilidade e garganta. É, porque gritar números em inglês num lugarzinho apertado e cheio de irlandeses famintos e conversadores não é mole não.
Gritei, entreguei e passei! Ao final do lunch time nenhunzinho burrito entregue errado e o “job” era meu! Escala semanal, salário mínimo, city Center, refeição no restaurante “for free”, voltar pra casa a pé. Não teve jeito, tive que explicar pro Sky a situação e até coloquei-me a disposição nos meus dias de folga. Ele respondeu, desejou-me sorte e ficou por isso mesmo. Tchau bolinhos e comidinhas bonitinhas. Olá comida mexicana apimentada da peste! Trabalhei, trabalhei e trabalhei!
Nas primeiras semanas chegava em casa todo dia quase chorando de dor. Um corpo sedentário que não estava acostumado a fazer serviço pesado por 6, 7, 8 horas por dia, sofria. Meu dia começava às 9h da manhã quando ia pra escola, escola direto pro Pablo e terminava quase às 22h, quando fechávamos o restaurante.
Fechar um restaurante. Uma verdadeira corrida maluca! Centenas de coisas pra fazer e 30 minutos de tempo. Era assim: “1, 2, 3… valendo!”. Recolher louças, lavar, limpar, limpar, limpar, esfriar comida, recolher lixo, limpar mais, guardar, fechar, desligar, checar. Tentávamos adiantar o máximo possível antes de fechar propriamente. Mas nem sempre era possível. E mesmo assim terminávamos pelo menos 15 minutos depois do horário. Dependendo da dupla, meia hora, ou até mesmo uma hora depois. Trabalhar de graça. Não é divertido.
Quando reclamava das dores e cansaços pras meninas, elas diziam que era “normal”, todas tiveram essa fase. E que em um ou dois meses meu corpo se acostumaria. Um ou dois MESES?
Ai entrava a parte da pegadinha novamente: em dois meses estaria embarcando para as terras tupiniquins, mais conhecidas como Brasil. Minha pátria amada, idolatrada, salve, salve…
Como assim, Aninha? Como assim o caramba! Se você é um leitor inveterado deste blog, não tem nada de ficar perguntando isso, porque já sabe. Caso tenha caído de paraquedas agora, clique aqui. Blé!
Intonces, desde que eu comecei a trabalhar no Pablo, sabia que teria que pedir minhas contas em dois meses. Comecei a procurar emprego mais no “vamos ver o que que dá!” e agora teria a oportunidade de juntar uma bufunfinha e ter uma experiência real na Irlanda quando voltasse do Brasa.
Resumindo: quando minhas dores estivessem próximas do fim, eu vazava. Simples assim.
No começo pensei em pedir as duas semanas pra ir pro Brasil, mas depois vi que o gerente fazia uma novela mexicana pras “staffs” que já estavam lá há um tempão e realmente precisavam de férias. Imagina pra mim que mal tinha começado. No fim, resolvi emendar minha viagem pro Brasil com mais duas semanas e meia de viagem pela Europa e só depois procurar outro emprego. No começo de janeiro avisei o gerente, iria viajar no final do mês. Ele surtou! Hahaha… foi hilário! Pra dizer o mimino! Ele ficou inconformado! Disse que tinha me treinado, me dado uma oportunidade, gasto tempo e dinheiro pra formar uma funcionária e agora eu ia embora assim? E que eu não estava dando tempo hábil pra ele encontrar outra funcionária pra substituir-me! Um mês? Por favor, a linha de produção fordiana de burritos não é a coisa mais difícil do mundo que eu já fiz!
Não pude deixar de comparar, quando avisei no meu trabalho no Brasil que estava indo fazer meu intercâmbio, foi com o mesmo um mês de antecedência. E na ocasião o que ouvi foi “Obrigado por tudo e boa sorte!”. E vamos dizer que, convenhamos, meu trabalho era um “pouquinho” mais complexo do que fazer burritos. Por aí começamos a tentar ver as coisas como “diferenças culturais”. Hehe…
Mas o mais hilário foi quando tentei explicar que era o casamento da minha melhor amiga e eu não podia perder e tal… Ele interrompeu-me e disse: “Não, não, Ana! Eu não admito!”. Fiquei muito braba e soltei um: “Desculpa. Eu não estou pedindo sua autorização! Estou avisando-o pra que você possa encontrar outra pessoa ou o que quiser. Mas eu estou indo, não é uma questão de você deixar!”. Depois disso acho que ele ficou quase uma semana sem nem cumprimentar-me direito. Mal criado!
Uma das coisas boas do Pablo era o bom clima entre os staffs. O Sean é esperto e contrata sempre garotas latinas. Majoritariamente brasileiras e mexicanas. Povo que gosta de trabalhar pesado, não é de reclamar, dá um clima pro restaurante (mexicano!) e entre time. Conversávamos praticamente o tempo todo em um “portunhol”, até pra que o Sean não entendesse nossas besteiras. Ele não ligava. Falava que desligava os ouvidos pra gente. Desde que o trabalho fosse feito, e bem feito, ele queria era que a gente falasse sobre o que quiséssemos. Ponto positivo. Pois depois eu descobri que nem em todo lugar era assim. Ah não mesmo!
O ponto negativo era esse paternalismo, essa necessidade de pedir tudo cheio de tato, a falta de profissionalismo. Não dava pra chegar nele como profissional e falar uma coisa e pronto. Ele queria dengo, um pouco de puxa-saquismo e isso me irritava.
Outra coisa: prática de inglês: zero! Não forçava meu cérebro a praticar, pensar, construir frases em inglês. Resultado: quando o gerente ou algum cliente vinha falar comigo, ficava completamente insegura e enrolava-me toda.
Mas pra primeiro emprego, sem inglês, tive muita sorte. Como tanta gente costuma dizer.
Ué, sou sortuda mesmo! Não entendo essa surpresa das pessoas! Eu acho esquisito algumas pessoas serem tão azaradas e ficarem repetindo isso como se fosse um motivo de orgulho! Rsrsrsrs… vai entender…
Sortuda só, não! Cara de pau também!
Por que cara de pau? Não perca o próximo capítulo da saga: “Pode ser sorte, pode ser azar…” nessa mesma hora e nesse mesmo canal. Tchau!
#alguémnãomesegure!