Pode ser sorte, pode ser azar… Parte VII

Ta tudo muito bom, ta tudo muito bem.
Já comentei sobre o tamanho da minha preguiça para procurar emprego uma vez mais. O que não contei foi que a essa altura já era inicio de Julho. Isso significava que em três meses meu visto acabaria.
Era hora de tomar decisões.
As perguntas eram inacabáveis:
Renovar? Não renovar? Esquecer esse papo operário de trabalhar, ir viajar agora e voltar pra casa? Se renovar, vou ter dinheiro pra pagar curso, visto, ir visitar minha família no Brasil e comprar outra passagem de ida e volta? O que fazer mais um ano em Dublin? Vale a pena? Teria tempo pra estudar de verdade? O que fazer?????!!!!!
Meus miolos fritavam. Não conseguia pensar em outra coisa.
Sai uma ou duas vezes pra entregar currículo. Mas não encontrei nada tão interessante, pra voltar, almejar, pentelhar e conseguir.
Ninguém me ligou. Ficamos por isso mesmo. Só na amizade.
Ate que, depois de ver uma das flatmates da minha ex-casa, chorando de raiva do emprego e do chefe, perguntei se podia levar um currículo lá. Sadoquismo é para os fracos!
Ela foi super fofa e me explicou tudo. Ela trabalhava na praça de alimentação do aeroporto de Dublin. Trabalhavam vários brasileiros lá. Pra variar, né?
O trabalho dela consistia, basicamente, em recolher pratos, passar um pano nas mesas, quando o carrinho estivesse cheio de louças, levar para a cozinha, descarregar tudo para os kitchenporter e voltar para fazer tudo de novo. Existiam algumas posições rotativas. Por exemplo, ficar no café ou no caixa. Trabalhava – em geral – cinco dias por semana, 39 horas. Ela disse que o gerente era um louco que vivia chantageando, humilhando e demitindo as pessoas sem razões aparente. Que ele tinha demitido alguém alguns dias atrás e que ela pensava que não estava precisando de staff. Mas como ele era doido, não custava nada eu ir lá entregar um CV. Sadoquismo é para os fracos, a missão.
A primeira coisa que pensei: “Ao menos não é Deli. Bora lá!”
Fui sem muitas expectativas e entreguei o CV para o irlandês carecão doido. Pra variar, com minha sorte, no dia seguinte ele me ligou. No outro dia fizemos uma entrevista de 3 minutos. E adivinhem? Ele tinha uma posição de Deli pra mim! Uhuuuuuuuuuu!!! Só que ao contrário. Buá!
O’briens. Uma rede bem famosa de sanduíches e cafés em Dublin. Dia do teste. A equipe era formada por um brasileiro (o bendito fruto) e uma brasileira, duas polonesas, uma eslovaca e uma estoniana. Uma polaca e a estoniana eram as “gerentes”. Um lugar pequenino. Mas a cozinha era interligada e a mesma para toda a praça de alimentação. Trabalhávamos todos para a mesma empresa. Tudo limpo, organizado, HACCP, fiscalização regular. Outro mundo do que eu estava acostumada. Minha missão era decorar um menu gigante que ficava atrás de mim, na parede e fazer os sanduíches o mais rápido possível. Hora do lunch time. Um busy, uma fila que não tinha mais fim. Tinha chegado às 8 da manhã e pensei: “Deve que são umas três horinhas de teste”. Fiquei lá até às 16h. Sempre vá preparado pra tudo, quando se trata de um teste em restaurante em Dublin.
No fim do dia, a supervisora perguntou como eu me sentia. Foi no mural da escala e preencheu meus próximos dias. Estava em fase de “teste-treinamento”, mas pelo jeito, tinha um emprego.
No dia seguinte, pressão! Rápido, rápido, rápido. Você precisa trabalhar mais rápido! E uma das gerentes teve a ousadia de me dizer: “Não é o seu primeiro dia, preciso ver sua evolução!” Era o meu segundo dia!!!
O pior, era a Eslováquia girl, era o tempo todo me corrigia. Alguém me ensinava alguma coisa de um jeito e quando estava fazendo, ela aparecia pra dizer que era de outro jeito. Falava na frente do cliente e me deixava morrendo de vergonha. Depois, claro que fiz amizade com a brasileira, e descobri que ela era nova. Tinha umas três semanas que estava lá e já tinha sido ameaçada de ser mandada embora pelo mau serviço. Coitada.
O Summer time tinha acabado de começar. Quer dizer, em algum lugar do mundo já era verão. Não na Irlanda. Ou seja, todo mundo estava indo viajar pra algum lugar quente. Aeroporto abarrotado. Eu era supostamente o reforço para a alta temporada.
Os dias foram se passando, eu fui pegando o jeito da coisa, mas não gostava daquele lugar. Em geral, as pessoas trabalhavam lá infelizes. Todo mundo me perguntava: “Ah, você é nova?” “Sim.” “Tá gostando?” “To conhecendo e você, gosta de trabalhar aqui?” “Odeio esse lugar. Mas preciso pagar minhas contas!” Era a resposta mais comum que recebia.
Até o perfil de brasileiros que trabalhava lá era diferente. Geralmente gente que já estava há mais de um ano em Dublin. Um povo que realmente morava em Dublin. Muitos com namorado (a) ou esposo(a) que também morava em Dublin. Um perfil de imigrante. Pessoas que não viajavam muito. Viviam para pagar as contas, renovar visto, visitar a família no Brasil e voltar. Nunca frequentavam a escola. Tinham um inglês de rua. E eram totalmente submissos ao empregador com suas escalas, mudanças de horários, cortes de horas etc.
Comecei a pensar seriamente e vi que se quisesse renovar meu visto, entraria nessa vida. Não teria condições de dar-me ao luxo de viajar pela Europa, ir pro Brasil, comprar outra passagem, pagar escola, visto etc. Fora que estava apenas começando naquele trabalho, só Deus sabia quando poderia ter férias, ainda mais com tempo suficiente pra ir pro Brasil.
Quanto mais fazia contas, mais via que a vida de imigrante estava cada querendo bater à minha porta. Uma das soluções seria renovar o visto, continuar trabalhando fazendo sanduíches, não frequentar as aulas, perder minha passagem para o Brasil (coisa que muita gente fazia), e quando o gerente falasse que eu podia tirar férias (com menos de uma semana de antecedência) eu poderia ver se era possível viajar pra algum lugar.
Definitivamente, não era isso que eu queria. Não era isso que eu tinha sonhado e planejado para meu intercâmbio. Com menos de 20 dias que estava trabalhando lá, depois de uma crise de pânico e de choro, decidi que não renovaria meu visto. Meus dias de O’briens tinha data exata para acabar: 15 de Outubro. Fim do meu visto. Fim da minha permissão para trabalhar. Não renovaria meu visto.
Sentia-me aliviada por finalmente ter tomado uma decisão. Decidir, definitivamente dói! Como sabia do caráter provisório, comecei até a me divertir com as situações no O’briens. Com uma semana que estava trabalhando, o gerentão me colocou pra fechar todos os dias.
Esse era o terror de todo staff. O pior horário. O trabalho mais pesado. E quem ficava comigo todo dia até antes de fechar? Justamente a Eslováquia girl! Quando cheguei era ela que estava fechando. E desde o primeiro dia, ela ensinou-me como ajudá-la e o que tinha que ser feito para “fechar” o lugar. Eu não parava um minuto. Limpando, atendendo, no caixa, trocando bowls¸repondo as comidas. Tudo. Mas é claro que a situação mudou quando ela sabia que não precisava mais fechar. Que não era responsabilidade dela como a gerente ia encontrar as coisas no dia seguinte. Não seria ela que teria que ficar até uma hora a mais do horário para terminar tudo.
Depois que as gerentinhas iam embora, ela mudava de atitude. Antes, prestativa, rápida, sempre procurando algo pra fazer. Depois das 15h ela simplesmente encostava-se no balcão e esperava aparecer um cliente para ela atender. Se estava muito parado, ela tinha a cara de pau de “ir ao banheiro” e voltar depois de 15 minutos. Eu me irritava, mas até ria da situação. Uma fdp descarada. Mas o que eu podia fazer? Era a novata. Tinha obrigação de ficar calada.
Porem, a brasileira que trabalhava com a gente, e via a situação, ficava revoltada. Comprou a briga pra ela e declarou uma guerra silenciosa conta a Eslováquia girl, ou “Alemoa do pavão”, como ela carinhosamente apelidou a loirinha.
Tudo estava indo nesse ritmo, no primeiro dia que fechei a gerente polaca me elogiou muito. Disse que o restaurante estava brilhando pra ela abrir. Pela primeira vez fiquei feliz naquele lugar. Sou movida a elogios. Ao menos, me sentia fazendo algo útil. E por mais que ficasse depois do horário, ao menos não precisava acordar tão cedo e ficava uma hora sem atender cliente.
Ah, querida, mas a “Alemoa do pavão” estava totalmente decidida a acabar com minha tão disciplinada paciência. Quando a gerente não encontrava as coisas tão perfeitas, costumava perguntar como tinha sido o dia anterior pra pessoa que ficou com quem fecha. Pra saber se tinha sido muito busy , não tinha tido tempo de fazer todas as coisas. E a bonitinha geralmente respondia que “não, não muito busy”. Sendo que quando ela ia embora eu estava no meio de um campo de guerra. Depois ela passou a checar as coisas quando chegava cedo. Acho que ela ficou tão brava que a polaca tinha me elogiado, que ela começou a procurar sujeiras, e coisas pra apontar cada canto com farelo de pão. A gota d’água foi o forno.
O forno era um caso a parte. Eram dois fornos. Serviam para tostar sanduíches e esquentar bagels. Depois do lunch time, desligávamos um forno, esperávamos esfriar, limpávamos, religávamos, desligávamos o outro pra limpar. O objetivo era deixar tudo limpo antes de fechar. Ao menos era uma coisa a menos pra fazer. Geralmente, quem estava com a pessoa que fechava se oferecia pra limpar ao menos um dos fornos. Afinal, quem fecha, tem 9789979 coisas pra limpar. É claro que a “Alemoa” não. Depois que eu comecei a fechar, ela nunca mais limpou um forno. Pois bem. Eu não ligava de limpar. Usávamos um produto corrosivo, era necessário usar uma luvona grossa até o cotovelo, mas o problema é que não tínhamos máscara e o cheiro era extremamente forte. O produto que usávamos acabou e no lugar veio outro que deixava o forno um pouco o opaco. E por mais que você enxaguasse, ele manchava quando o forno era religado. A boazinha, começou a chegar pela manhã e abrir o forno pra mostrar as manchas no forno. Querendo dizer que estava fazendo um serviço mal feito.
Aí me irritei! A cretina não ajuda e ainda quer te f*%&# de qualquer jeito! A brasileira ficou tão nervosa que até tremia. Revoltada de verdade. Senti que precisava fazer algo, nem que fosse mais por ela do que por mim. Esperei um dia perfeito. A última gerente iria embora às 15h, ela iria às 16h e a brasileira ficaria comigo nesse dia até fechar. Quando era quase dez pras 16h, não tinha cliente e era a hora da conversa.
Chamei a branquela na xinxa! Perguntei o que estava acontecendo e por que ela tinha feito aquilo. Peguei as luvas e disse: “Se você é tão perfeccionista, eu não vejo nenhum problema em você colocar as luvas e limpar o forno todo dia!” A bicha ficou pálida e disse que não era nada daquilo, que só mostrou e comentou: “Tá vendo? Quando eu fechava também acontecia isso!” Ah, vá! Falei que não tinha nada contra ela. Mas se, além de não me ajudar, ela estava tentando me prejudicar, eu não teria nenhum problema de fazer algumas reclamações sobre sua postura.
O povo da cozinha escutou a discussão e ganhei até um pouquinho de moral. Eita Ana briquenta, viu! Mas esse povo pede, hein, jisuis!
Depois disso, ela ficou alguns dias sem falar comigo. Depois teve um dia que foi lá, pegou as luvas e limpou o forno. Depois voltou na mesma preguiça. No fim, ela era só folgada. Mas eu conseguia até que trabalhar bem com ela. Bem nas minhas últimas semanas, a gerente estava achando a postura dela muito desleixada e suja e pediu para o gerente colocar ela pra fechar, pra ver se ela ficava mais esperta. Pra mim dava na mesma, já tinha pegado o jeito da coisa. Mas ela detestava fechar. A brasileira achava que justiça tinha sido feita. Tá bom então.
O verão foi acabando e o movimento também. Aos poucos, o gerente foi cortando horas. Em geral e acentuadamente, as minhas e do brasileiro. Primeiro uma hora por dia, depois um dia inteiro. De 39 horas, estava fazendo agora 28. E ele poderia fazer o que ele quisesse, quando quisesse e do jeito que quisesse.
Faltava pouco, o jeito era aguentar. Estava contando com aquele dinheiro. 44 horas a menos no mês fazia diferença, com certeza. Mas durante o verão tinha trabalhado até 6 dias por semana, 47 horas por semana. Tinha ficado totalmente exausta, mas ao menos compensaria um pouco.
Era hora de planejar o que faria. Como voltei para o Brasil em janeiro, tinha uma passagem que valia até o próximo janeiro. Podia trabalhar até meu visto acabar e depois viajar como turista. Na hora de decidir os lugares pra ir, tive que colocar na balança: “finanças + onde não posso deixar de ir + o que quero mesmo ver!”
Por exemplo, a minha sonhada viagem pra a Grécia ficou para uma próxima vez.
Londres era o vizinho que não dava pra deixar de conhecer.
Amsterdam com tulipas, Van Gogh e Anne Frank era o lugar com o qual sonhava desde sempre.
E pra seguir uma dica certeira e não ficar só na Europa tradicional, Budapeste pra fechar.
Parece que estava faltando alguma coisa? E a tal da Itália, dona Ana?
Ah, a Itália era um caso a parte. Sonhava com a Itália. Desde o início do meu intercâmbio, cogitava fazer uma viagem grande pela Itália. Até pesquisei alguns campos de voluntariado para ficar um tempinho.
E como quando a gente se move o mundo se move, surgiu uma oportunidade muito mais incrível de tirar umas “feriazinhas” na Itália.
Tudo decidido. Passagens compradas. Roteiro pronto. So faltava pedir as contas. Pensei seriamente em avisar nos 45 do segundo tempo, os gerentes daquele lugar eram realmente imprevisiveis. Nao podia me dar ao luxo de correr o risco de avisar com duas semanas de antecedencia e ele simplesmente dizer: “Ok. Nao precisa mais vir.” Bastava ele aumentar as horas dos outros staffs.
Mas no fim nao achei justo. Tinha recebido uma oportunidade, os meus colegas de trabalho deviam organizar-se. Avisei com um pouco mais de uma semana de antecedencia. Justificativa era mais que honesta: meu visto iria expirar, nao tinha intencao de renovar e nao teria mais permissao pra trabalhar. Agradeceram os servicos prestados e deixaram eu trabalhar ate o ultimo dia.
Todo mundo feliz. Quer dizer, quase todo mundo. O chefao-irlandes-carecao nao me falou uma palavra. No dia que ficou sabendo da minha demissao e teve que alterar a escala para proxima semana, apenas apareceu no balcao do O’briens. Fez questao de conversar com a estoniana, olhou pra mim e me mostrou os punhos com cara de poucos amigos. O que pensei: “Que profissionalismo!” E sorri. É o melhor que sei fazer na vida.
Se ele ofecereu o que tem: agressividade. Eu ofereco o que tenho: meu sorriso e cara de pau. 😀
O que posso dizer seguramente é que a experiencia no O’briens foi importante pra mim. Principalmente em relacao ao ingles. La tive que praticar ingles na marra. Trabalhava majoritariamente com estrangeiros, entao tinha que me virar. Além disso, atendi pessoas até por mimica. Centenas e centenas de turistas. Cada um com seu sotaque, jeito de pedir as coisas. O maravilhoso sotaque irlandes que me dava vertigens no comeco e depois nao me intimidava pra pedir pra repetir, apontar, falar de outro modo. É dificil, gente!
E tinham os que nao falavam ingles e ponto final. As meninas eram mais malvadinhas e nao faziam questao de ajudar. Eu tentava. Usava meu “vasto” conhecimento em espanhol aprendido no tempo de Pablo Picante. Arriscava umas palavrinhas em italiano, pela convivencia de amigos. O povo tinha fome! Achava maldade nem tentar ajudar. Fiz inumeros sanduiches so por mimica. E às vezes quando ajudava um em espanhol, por exemplo, ele voltava com uma turma de amigos. Falava: “Pede para aquela, ela fala espanhol!” As outras meninas ficavam de bracos cruzados e riam pensando: “Ta vendo? Se f&%$#!”
Mas teve uma certa espanhola de idade um tanto avancada, que um dia perdeu a oportunidade de saborear um delicioso sanduiche preparado por essa bloqueira porreta. Ela chegou, olhou a vitrine – era pos lunch time, estava tudo bem tranquilo – e gritou como se eu fosse surda: “Jamon y queso!”. Sem “bom dia, boa tarde, boa noite” e muito menos algo do tipo “por favor”. Em qualquer lingua que seja! Uma coisa que aprendi é que voce nao precisa necessariamente aprender uma outra lingua. Tente ao menos ser educado na sua! A entonacao e sentimento que voce coloca na sua voz, pode ser entendida independentemente do idioma. Eu soltei um automatico: “Sorry?” E ela gritou ainda mais alto e mais mal educada: “JAMON Y QUESO!” A resposta final foi: “Sorry, I don’t speak your language” E ela saiu achando um desaforo e resmungando. Ficou sem o misto quente, fia! Por favor, caros, sejam educados em qualquer idioma. Thanks! Grazie! Gracias! Obrigada!
Tinhas conversas ilarias com a brasileira que tornou-se minha amiga. Ela me xingava, me apelidou pejorativamente de “Curica”, pois é uma noveleira inveterada. E ainda ensinou as meninas da Polonia, Eslovaquia e Estonia como pronunciar pra me chamar assim também. Trocavamos confidencias em portugues, com um monte de gente envolta sem entender. Ela até gastou uma sessao com o terapeuta pra falar de mim quando disse que ia embora. Senti-me importante, sua galis! Hihi… deixou saudades e boas lembrancas! Desejo tudo de melhor pra ela. E para tantos outros brasileiros (e nao brasileiros tambem) batalhadores que conheci la no Wrights Food Hall.
È, foram sete partes dessa saga trabalhistica. Posts imensos. E nao é pra menos. Dos doze meses que morei em Dublin, trabalhei mais de nove. Foi o que mais fez parte do meu dia a dia. Era onde eu estava a maior parte do tempo. Mas foi bom. Diverti-me. Irritei-me. Aprendi. Aprendi muito. Nao posso dizer que sinto saudades daquela vida. No final sentia que meu cerebro estava diminuindo a cada dia. Trabalho de muito esfoco fisico e nenhum esforco ou desafio mental. Um dos motivos pra eu nao conseguir ver-me fazendo isso por mais um ano. Mas foi uma fase. Uma boa fase. Uma fase que dificilmente esquecerei. A nao ser que sofra um acidente da aviao, va parar numa ilha deserta e nao me lembre nem do meu nome. Nesse caso, sim. Esquecerei. Ué, nunca se sabe, genthem!
Ufa, missao cumprida! Nao, nao dos trabalhos. Do blog.
Agora podemos mudar de assunto, finalmente! Uhuuuuuu!!!!
Sugestoes?
#alguemmedaumaideia

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte VI

Ufa, chegamos no ultimo post da saga…
Quer dizer, pegadinha!
Eu pensei que era o ultimo… mas voces vao ter que me aturar mais um cadim, so!
Bem, mais uma vez desempregada! Ja estava virando moda. E eu estava cansada. Cansada de bater perna, cansada de fazer cara (e ter de ser de verdade) hardwork, cansada de prever que ia dar merda de novo. Estava comecando a bater um pessimismo. E eu nao sou uma pessoa pessimista. Era comeco de julho e eu nao sabia o que queria fazer.
Meu ingles nao tinha melhorado muito e eu comecei a pensar seriamente na ideia de ser aupair. Sem a pressao de restaurante, o servico nao era tao pesado e eu poderia praticar ingles. Tanto com os pais, como com a crianca, se fosse ja grandinho.
Bora la! Fiz o cadastro em uns dois sites e uma pagina do facebook. Um deles, é claro, era o site da tal Greice. Uma brasileira que é famosa em Dublin por conseguir posicoes de aupair para meninas.
As opinioes das pessoas que conheco, sao contraditorias. Devo dizer, que a maioria é grata pela oportunidade de ter conseguido uma vaga. Outras, a acham um tanto gananciosa, pois cobra das familias e das aupair uma taxa (que convenhamos, pelo salario das meninas, nao é nada barato).
Mas o fato é que ela tem muitas indicacoes e a maioria das aupairs que conheco, conseguiu por ela.
Feito o cadastro, fui convidada para um workshop com a tal da Greice. Opa, bora la. No comeco ela queria cobrar uma taxa, mas depois, com as varias desistencias, ela reconsiderou e fez for free. Era o primeiro workshop oferecido por sua agencia.
Foi um dia interessante. Uma palestra ministrada por uma psicologa. Dinamicas em grupo. Simulacoes de entrevistas com a familia. Depoimentos de quem vive, ou viveu, uma vida de aupair. Bem preparado, bom material didatico, um coffee com varios quitutes. Eu aprovei.
Mas nao aprovava as propostas que recebia. Depois que voce completa o cadastro, a Greice comeca a enviar mensagens por sms pro seu celular. Com a descricao da familia (Ex: Irish, mae fica em casa…), quantidade de “anjinhos” e idades (4 kids: 5, 4, 2 e 3 meses) horario (seg a sex, 7:30 as 9:30 e 13:30 as 18:30) dia e horario da entrevista, nivel de ingles exigido, algumas vezes se existe atividade extra (alem de cuidar das criancas e das coisas das criancas) e o salario semanal. Era ai que a porca torcia o rabo. Eu ja tinha minha casa, minha privacidade, minha vidinha. E a maioria das vagas eram pra ser live in, ou seja, morar com a familia. Em localidades distantes do centro de Dublin, ou no interior, e para ganhar em torno de 100 a 120 euros por semana.
Bem, considerando que voce nao tem gastos com moradia, contas, comida, talvez nao seja tao pouco. Mas pra mim, era. Pouco pra voce perder sua privacidade, ter que comer a comida que outra pessoa escolheu e preparou (e comida pra mim, é um caso serio), morar no trabalho, poder visitar seus amigos so nos fins-de-semana. E olhe la, porque a passagem pra voltar pra Dublin poderia sair tao cara, que muita gente ate desiste de voltar sempre.
Nao, definitivamente nao era o meu foco. Precisava melhorar meu ingles, é verdade. Mas ao mesmo tempo, queria ter minha vida, meus amigos, meu espaco, meu dinheiro. Queria viajar! A vida financeira de uma aupair, nem sempre, permite fazer muitas viagens. Descobrir que ser aupair na Irlanda pode ser uma carreira. Se voce possui boas referencias e experiencia, pode conseguir salarios melhores e ser babysister (que cuida das criancas esporadicamente, mas tem um salario por hora muito mais alto e pode cuidar de varias criancas) ou nany (uma baba especializada, que deve ter mais didatica. Nao so brincar, mas ser tambem uma educadora).
Enfim, eu nao tinha esse tempo, nem essa ambicao na Irlanda. Meu foco era outro. Por isso, acabei desistindo da ideia de ser aupair, sem ter participado de uma entrevista sequer. Nhé!
Acho super valido pra quem tem esse interesse. Conheco gente que adorou a experiencia. Acabou se tornando quase parte da familia, amava as criancas, melhorou o ingles vertiginosamente, com sotaque irlandes e tudo, teve mais contato com a realidade e cultura Irish.
Eu nao tive nada disso. Mas tenho outras historias pra contar.
Bom, por hoje fica essa de “quase-ser-aupair”.
A proxima, espero eu, sera a ultima parte desse assunto que “empobrece, emburrece e mata”. Mais conhecido como trabalho.
#alguemesquentemeusdedinhoscongelados
PS: Ah, ontem nevou aqui no sul da Italia! Primeira vez que vejo neve. Na montanha. Lindo! A explicacao para a #. Ta frio, po!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte V

Tchan, tchan, tchan…
Qual sera que foi o resultado da minha temivel, ameacadora e tempestuosa frase?
Nenhum…
Ela simplesmente foi embora com todo sua arrogancia e em poucos minutos o socio Irish chegou. Perguntou se estava tudo bem e a “Aninha-nao-sabe-esconder-o-que-pensa-e-sente”, disse que sim. Ele insistiu e eu disse o que tinnha acontecido. Ele ficou puto, disse que eu estava fazendo um otimo trabalho e que iria conversar com ela.
Eu nao gosto desses nhem-nhem-nhem em trabalho, mas tem situacoes que sao f…
No dia seguinte ela chegou possuida, dizendo que se eu me ofendi deveria ter ido falar com ela, que brasileiro nao pode queimar brasileiro etc. Fico pensando, ela é brasileira e achava que meu trabalho era “mamao com acucar”, as polonesas eram umas fofas comigo e sempre diziam que nao sabiam como eu aguentava o tranco e tal. E eu deveria fazer o que? Puxar o saco da grossa? Gente é gente. Em toda cultura e nacionalidades tem as que o genio bate e outras nao.
Gostei muito de trabalhar com brasileiro em geral. Essa foi a unica excecao. Pessoal esforcado, que nao tem medo nem preguica de trabalho, ajuda, ensina, orienta em tudo o que é possivel. Mas sempre tem um casinho pra virar um causinho, né?
Meu horario era das 7 às 15h. Claro que era impossivel terminar tudo o que tinha que fazer. Ainda tinha o detalhe: limpar a cozinha porca! No comeco estava indo embora todo dia 5, 6 da tarde. Mas nao tinha como aguentar o tranco. 11 horas em pé numa cozinha com a temperatura de uns 50°C na cuca o dia inteiro, nao é mole nao!
Falei com o Andy e ele colocou uma outra brasileira pra me ajudar. Ela ficava no dely até as 15h e quando eu ia embora ela descia e descascava uns legumes, adiantava algumas coisas e limpava a cozinha.
Tudo poderia ter caminhado pra algum lugar, se os donos nao fossem dois birutas. Eles mudavam de ideia todo dia. O restaurante comecou com uns 10 ou 12 funcionarios. Ate eu achava muito. Mas de uma hora pra outra ele comecou a demitir gente. Demitia 3, testava 1… As meninas do dely super sobrecarregadas. Dai ele simplesmente mudou meu horario para das 9 as 17h. Dizendo que assim nao precisava mais de ajuda e poderia limpar a cozinha. Eu praticamente nao dava conta de fazer o que tinha que fazer entre 7 e 12h, agora teria duas horas a menos.
Ninguem ficava no restaurante. Nenhum dos donos, nem o chef. O restaurante tinha cameras para todos os lados e eles ficavam nos assistindo tipo Big Brother. Depois vinha um dia pra dar “enrabadas” e falar: “Voce esta trabalhando mal!” “Voce é lenta!” etc.
Era bizarro. Uma das pessoas pra quem ele falou isso foi aquela brasileira. Ela ficou furiosa. Vivia dizendo pros quatro ventos que as outras meninas eram lerdas e ela levava o dely nas costas. Imagina ouvir do dono que ela era a lenta! Essa menina chorou, esperneou, chamou o dono pra conversar e falar que ela era boa, sim senhor! Poucos dias depois foi viajar pra Paris, no dia que deveria voltar, telefonou falando que o voo de volta pra Dublin atrasou e o Andy falou que ela nao precisava mais voltar.
E a coisa foi indo por esse rumo.
Quando tinha mais ou menos um mes que estava trabalhando la, tive uma infeccao estomacal. Algo que nunca tinha acontecido em minha vida. Comecei com umas dorzinhas abdominais tipo na quarta-feira. Ate comentei com as meninas do restaurante, mas tudo bem. Na sexta-feira a noite fui pro Boteco Brasileiro, pois ia ter o tal do Caio Castro como DJ. Fui ja moribunda e nao aguentei ficar nem uma hora la.
Voltei pra casa e os proximos dias foram de dor e sofrimento. Tudo que ingeria causava dores insuportaveis no meu estomago e em poucos minutos ia ao banheiro e botava tudo pra fora.
No total fiquei 5 dias podre. O fim de semana e so voltei a trabalhar na quinta-feira. Fui ao medico, tinha receita, atestado e tudo o mais.
Hoje tenho certeza que foi a comida la do restaurante que me fez mal. Nao costumava comer sempre la. Eles nao davam comida. Tinhamos um desconto de 30%, entao ou levava algo de casa, ou comia alguma coisa no Spar que ficava em frente. Mas de vez em quando, pedia pras meninas fazer uma wrap pra mim. Escolhia entre as coisa que estavam mais fresquinhas. Mesmo assim, as condicoes daquele lugar. E principalmente o fato da minha mente ficar pensando isso: “Alguem pode passar mal comendo a comida daqui! Alguem pode passar mal comendo a comida daqui! Alguem pode passar mal comendo a comida daqui!”. Irlandes tem estomago de avestruz. Resultado, quem passou mal? A propria Aninha! Foi um horror!
Ah, quando fiquei doente fui à uma medica polonesa que nao falava ingles! Uma comedia! Mas isso é assunto para outro post…
“O que aconteceu, Ana? Pelamor, diz logo porque esse post ja esta ficando mais comprido que o cabelo da Rapunzel emendado em Faroeste Caboclo e atrelado com November Rain!” (essa nem eu sei da onde eu tirei!)
Ok, leitores preguicosos! Vamos aos finalmentes.
Se voce pensou: “Ufa!” Vou escrever mais 20 paginas, so de raiva!
Brinqs!
Bem, desde quando eu estava no Pablo da primeira vez (em dezembro, eu acho) minha flatmate e eu, compramos ingressos para ir assistir Pearl Jam em Berlin! Ela faz parte do fa clube e tinhamos ingressos para os dois dias de show. Pois bem, os shows eram quarta e quinta. Compramos as passagens indo pra Berlin quarta e voltando sexta. Pois bem, planejamos assim, pois no Pablo eu trabalhava de domingo a domingo e tinha folgas em dias alternados durante a semana. Geralmente duas folgas. Entao pedir uma folga a mais nao seria o fim do mundo e eu poderia trabalhar o fim de semana.
O fato é que nao fiquei no Pablo. E no Chopped eu trabalhava de segunda a sexta. O restaurante fechava aos finais de semana.
Comecei a trabalhar no comeco de maio. O show seria no comeco de julho. Quando estava umas duas semanas la, ja avisei sobre minha viagem. Disse que precisaria ficar tres dias fora, expliquei toda a historia anterior e tals. Falei primeiro para o Brian (o socio Irish, que depois descobri que nao apitava nada) e depois, na frente do Andy, lembrei o Brian de avisar o Andy. E ele explicou tudo.
Ok. Aviso pra mim é aviso. E assim continuamos nossos dias felizes, trabalhando na cozinha porca e sem nenhum supervisionamento.
Ate que chegou a semana anterior a minha viagem. A essa altura do campeonato, o Rory de vez em quando aparecia pra mexer numa coisa outra na cozinha. Eu aproveitei e avisei pra ele tambem sobre minha viagem. Alguns dias antes da minha viagem o Slav pediu as contas. O Andy pediu a eles alguns dias para testar e treinar um substituto. Os dias se passavam e ninguem fazia nada sobre colocar alguem no meu lugar, nao sabia se o Rory viria, ou sei la o que. Por coincidencia, na vespera da minha viagem foram dois chineses fazerem testes. E um deles continuaria indo nos proximos dias. Melhor assim. Afinal, a cozinha era tao pequena e tumultuada que nem dava pra trabalhar tanta gente mesmo. Avisei pela ultima vez o Rory (pois era a unica pessoa responsavel que estava la) na vespera da minha viagem e fui tranquila.
Fui, assisti a dois shows incriveis do Pearl Jam. Na segunda noite ficamos na primeira fila, na grade mesmo! Quase no fim do show o guitarrista pulou do palco e fez um solo de guitarra olhando nos olhos da minha amiga! Foi o maximo!
Passeamos um pouco por Berlin. Tudo bem corrido e superficial, mas deu pra perceber quao moderna, cosmopolitana e “pra frente” é aquela cidade. Gostei muito!
Cheguei em Dublin na sexta feira a noite. E nao foi muita surpresa quando no domingo o Andy me liga e pergunta o que aconteceu. Eu disse que estava na Alemanha, ué! E ele teve a “cara-de-pequeno-pau-chinaman” de dizer que eu nao tinha avisado. Ah va!
Eu tentei explicar, disse que ja tinha avisado fazia mais de um mes, para os dois donos e na véspera avisei para o chef de cozinha. Ele disse: “Quinta-feira voce pode vir pegar o seu cheque, mas nao precisa vir mais!”
Ah, fiquei muito brava! Disse a ele que se ele nao precisava mais dos meus servicos, tudo bem. Mas que nao justificasse falando que eu nao havia avisado. Ele disse que eu tinha que relembra-lo, que ele era muito ocupado e nao tinha obrigacao de lembrar. Eu soltei um “ocupado eu nao sei, mas desorganizado, com certeza! Como voce pode administar um restaurante desse jeito?” Ele respondeu algo do tipo: “Eu sou o dono e faco o que quiser!” “Por isso aquele lugar vai de mal a pior! E adeus!”
Liguei para a outra funcionaria brasileira que tambem estava planejando viajar, para falar pra ela avisar 57 vezes pra nao correr o risco e ela solta: “Tarde demais, ele ja me demitiu na sexta-feira!”.
Resumindo, ele demitiu todas as brasileiras e comecou a contratar um monte de chines. Tudo bem. Se voce prefere trabalhar com quem é da sua cultura, eu nao vejo nenhum problema. Mas inventar motivo pra te despedir, ah isso nao admito. Enfim, mais uma experiencia para o CV. Mais uma historia pra contar.
Uma parte de mim gostava de trabalhar la. Nao sei exatamente o porque. Acordava às 5 da manha, chegava em casa totalmente destruida. Nao tinha forca pra fazer mais nada. Era pesado, puxado, nao tinhamos horario de intervalo. Apenas 15 minutos pra engolir alguma coisa. Ficava no minimo 8 horas em pe. Um calor de matar. Chegava em casa totalmente defumada. Meu cabelo, minha roupa, ate minhas meias e calcinhas cheiravam a tempero. Mas gostava de passar um tempo com minhas comidinhas. Picar, temperar, cozinhar. Sentia-me util e realmente fazendo algo de novo e interessante. Aprendi muito e imagino se fosse uma cozinha organizada e com um chef de verdade pra me orientar o quanto mais poderia ter aprendido.
É claro que valeu a experiencia.
Na verdade, foi a primeira vez em Dublin que pensei sobre meu trabalho. Ficava no caminho, em casa, até durante a ducha, pensando em como organizar melhor meu dia. Buscando solucoes e fazendo cronogramas hora a hora pra fazer um trabalho mais limpo, organizado e correto.
E bora la bater perna de novo… fico cansada so de lembrar quando… quer dizer, isso é estoria para o proximo post.
Quem leu esse até o fim, parabens! Dessa vez eu me superei. Meus dedinhos estao ate doendinhos… por isso dividi em duas partes.
So pra adiantar, o proximo emprego foi o ultimo, ok?
Ufa!
Inté!
#alguemmecarregue!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte IV

CV novo, animação velha.

Viajei, fui pra Irlanda do Norte, Giant’s Causeway e Derry, visitei Edimburgo. Viagens ultrarecomendas! Pero… Frio, frio, chuva, vento. Voltei com uma infecção de garganta na mala. Mudei-me de casa. E adquiri a síndrome da “preguiça da cama gostosa”.  Um frio da gota, quarto single, duvet macio e cama de casal confortabilíssima! Nem pra escola tinha coragem de ir, imagina procurar emprego! Peeeeennnnnnseeeemmmmmm numa preguiça!                                                                           

Depois de uns 10 dias mucosada em casa, resolvi dar uma voltinha. Entreguei uns CV’s pelo centro. E tomando um café com uma amiga pablita, ela me deu a dica de um restaurante que estava pra ser inaugurado na mesma rua da outra filial do Pablo Picante. Opa!

Na fachada tinha um anúncio chamando pra fazer parte do time e com um endereço de e-mail. Porém, a inauguração seria em dois dias. A ideia parecia boa. Um salad bar, comida fresca e natural pra take away. Eu gosto. Aliás, era super adepta do Salad Creations em Sampa. Anotei o e-mail, enviei meu CV dizendo o quanto seria o meu prazer de fazer parte do time e tudo aquilo que a gente já sabe. Mas fiquei pensando com meu zíper (não sou muito chegada a botões): “A inauguração é em dois dias. Eles não vão ter tempo pra me chamar, fazer entrevista e tal. Devem estar super envolvidos com a abertura e tal. A equipe já deve estar meio que formada. Preciso fazer alguma coisa além…”

Bora lá, ué! No dia da inauguração, peguei minha pastinha de CV’s e fui ver “qualéqueera”.

Estava um caos! Os donos estavam oferecendo comida de graça! (não sei se é uma prática comum em Dublin, mas penso que sim). Fila, fila, um mundo de gente. Na porta, dois rapazes, um chinaman e um Irish entregando flyers do restaurante e controlando o tumulto. Eu me apresentei, deixei meu CV e pensei: “tomara que esses planfeteiros entreguem isso pro gerente!”.

Ledo engano, o chinaman era simplesmente o dono e o Irish com cara de moleque, o sócio. Preconceitos que rondam nossa mente mesmo sem a gente querer!

E como eu sei? Porque no dia seguinte o Andy (o china) me ligou e chamou-me para uma entrevista no mesmo dia. Iupi! Cheguei e desci para o porão onde ficava a cozinha e o escritório improvisado. Bagunça, sujeita, desorganização. O Andy prontamente desculpou-se e disse que era por causa da inauguração e tal. Olhou meu currículo, perguntou sobre minha experiência com dely e com cozinha. Depois das minhas considerações ele disse que eu poderia fazer um teste na manhã seguinte. Iupi II!

Cheguei na manhã seguinte e conheci o chef da cozinha (Rory) e seu assistente (o polonês, Slav). Rory pediu pra eu ajudar a fazer uns espetinhos de frango e começamos a conversar. Um gordinho bonachão e atrapalhado, muito simpático e que arriscava umas palavras em português (e em diversas línguas). A vaga era para o dely, mas a verdade é que nunca saí da cozinha.

O Rory adorou meu trabalho e no fim do dia falou pro Andy: “Contrata essa garota! Ela é muito boa e eu a quero aqui!” Anotou? Copiou? Colou? Iupi III!

Se eu for analisar o trabalho que mais gostei no sentido do trabalho exercido, posso dizer que foi lá, no Chopped (by the way, o nome do restaurante). Meu dia passava voando, picar trocentos legumes e verduras, temperar, assar os frangos, presunto, lavar quilos e quilos de alface. Não tinha contato com os clientes, não tinha que encarar o caos do lunch time, a fila interminável, o irish acent pedindo coisas que eu não entendia e toda aquela bagunça do dely.

Mas em muitos sentidos, trabalhar no Chopped foi a experiência mais insana de toda minha vida!

Serião!

Pra começar, aquela cozinha minúscula, no subsolo, sem janela ou ventilação, quente que nem o verão no Piauí e imunda! Sim, imunda! O chef tinha um sistema de trabalho o mais porco possível! Picava coisas e saia derrubando no chão. E, claro, não limpava nada. Picava legumes e colocava as cascas e pontas no lixo, depois resolvia que iria usar para a sopa, daí voltava e recolhia tudo e botava na panela. Eca!

Fora que as entregas chegavam pela manhã e eles deixavam as coisas fora da geladeira por horas. Carnes frescas, incluindo frango e frutos do mar! Altamente perigoso pra saúde. Isso deixava-me louca!

Tudo era feito de forma desorganizada, na correria, no meio do caos. O Rory gosta do caos. Sente-se importante, indispensável, sei lá. Eu nao gosto do caos.

Porém o tal do Rory é um chef famoso e nao era o chef oficial do restaurante. Ele estava prestando um tipo de consultoria para abertura do restaurante, criacao do menu, organizacao do trabalho da cozinha etc. O que no caso dele significava “desorganizacao da cozinha!”.

A minha “sorte” foi que depois da primeira semana, o Rory sentiu-se mais confiante e comecou a retomar suas atividades e largou nos (Slav e eu) sozinhos na cozinha.

Era uma loucura! Primeiro porque o Slav nao era uma pessoa la, muito dinamica. Gordinho, calmo e do lema “devagar se vai longe”, ocupava-se a manha inteira de preparar as sopas do dia e descer as entregas. Dai eu tinha que me organizar para dar conta de fazer TODO  o restante.

Uma listinha basica das minhas tarefas em um dia de trabalho:

Vou comecar pelo trabalho feito apos o lunch time, pois era a preparacao para o dia seguinte:

12h30

– Limpar, cortar e marinar uma média de 20kg de file de frango.

– Cozinhar uma peca de 12kg de presunto.

– Limpar, cortar e marinar um peruzao de 5kg.

– Organizacao da geladeira.

– Descascar todos os legumes possiveis: beterraba, cebola, cenoura, batata, batata doce, laranja, pepino, limpar pimentao etc.

– Picar e preparar os vegetais “roasted”: batata doce, cenoura com uva passa, mix vegetais (abobrinha, cebola, pimentao, cenoura, batata doce).

– Gratinar queijo.

– Gratinar cenoura.

– Picar e preparar cebola caramelada. Uma panela gigante cheia de cebola, vinagre a acucar cozinhando por horas e empesteando todo o ambiente com um cheiro insuportavel!

– Marinar tofu.

– Preparar 17 tipos de molhos (Cesar, barbecue, maionese etc.) 17!!!! Era uma melacacao e um transtorno.

Era muita coisa e em grande quantidade! Tentava adiantar tudo o maximo possivel, pois pela manha o bicho pegava.

7h

– Checar o que havia sobrado do dia anterior e se estava em condicoes de uso (so pra constar, eu decidia se estava bom ou nao. Mas nao era treinada pra saber checar se estava bom ou nao!)

– Assar files de frango. Usavamos uma media de 180 por dia, cada forma eu conseguia socar uns 20. Ou seja, ao menos 9 formas. Colocar, virar, checar temperatura, tirar, colocar pra resfriar.

– Assar o presuntao.

– Assar peru.

– Assar umas pernas de pato engorduradas.

– Descongelar frutos do mar, salmao e camarao.

– Picar: tomate, pepino, cebola, cebolinha, repolho, pimentao, brocolis, vagem, abacaxi, laranja, abacate e sei la mais o que. Tudo picado à mao!

– Cozinhar noodles.

– Lavar e secar quilos e quilos de alface americana, alface crespa, espinafre, rucula, repolho, repolho roxo.

– Encher os tubos dos 17 molhos! 2 ou 3 de cada! (nem preciso comentar como esse trabalho era particularmente desesperador, né?)

– Subir com tudo isso e com ovos cozidos, os “roasted vegetables”, queijo, cebola caramelada, tofu, milho, umas pimentas. TUDO! Ou seja, fazer umas 100 viagens subindo e descendo da cozinha (no subsolo) para a loja.   

Nos nao éramos autorizados a preparar com margem de sobra, entao quando comecava o horario do almoco, comecava a loucura.

As coisas acabavam rapidamente e eles vinham pedir mais. Mais pra ontem! Eu tentava prever o maximo possivel e fazer o melhor. Mas nao era facil.

No comeco, tinha uma outra brasileira que trabalhava la e no dia da abertura ajudou na cozinha. Depois disso ela foi pro dely e eu fiquei na cozinha. Sempre senti um ressentimento da parte dela por isso. Ela tinha um jeito ja conhecido por ser um pouco despachada demais, falar tudo que pensa, meio mano.

Por mim tudo bem, voce faz seu trabalho e eu faco o meu. Todo mundo se respeita e ponto final.

Mas quando a parte do “todo mundo se respeita” vai pras cucuias, dai é complicado.

Ela sempre descia na cozinha pra pedir o que acabou. Ao contrario das outras staffs (majoritariamente polonesas) que vinham ja pedindo desculpa e falando “quando der, se voce puder, sei que voce tem um milhao de coisas pra fazer etc.”; essa brasileira chegava gritando e falando que os clientes estavam pedindo e ela ja nao tinha cara de falar que estava faltando isso e aquilo. Eu fazia, entregava pra ela, sem muito papo.

Até que um dia, ela desceu com a furia e TPM total cobrando uma coisa. Eu desculpei-me, disse que estava quase pronto e falei pra ela manter a calma que eu estava no meio de um monte de afazeres. Ela esbravejou dizendo que eu nao tinha ideia do que era trabalhar. Que ficar la no dely que era loucura. Que ela ja tinha trabalhado na cozinha (1 dia!) e que aquilo era “mamao com acucar!”

Eu fiquei muito brava e so soltei: “Por favor, saia da minha cozinha. Eu trabalho com uma faca na mao e nao quero perder meu equilibrio. Isso pode fazer com que eu machuque a mim mesma ou outra pessoa!”

Brinca com a Aninha!

E o que aconteceu depois? Eu a esfaqueei? Amputei meu dedo? Dei uma facada no peito do peru de com odio e furia?

Bem, isso fica pra amanha, porque esse post ja esta virando a historia sem fim parte 2335444.

#Alguemtiraafacadaminhamao!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte III

Pois é… Fui pro Brasil. Voltei pra Dublin. Fui pra Portugal. Visitei a Espanha. Dei um role em Paris. E voltei pra Dublin de novo. E precisava de emprego.
O que acontece? Acontece que durante minha viagem “um passarinho me contou” que o Sean estava doido atrás de “staff”. Não tinha parado ninguém lá na minha ausência e todo mundo estava sobrecarregado de horas. E sabe o que mais? Eu tinha o cheque da minha última semana pra buscar.
Bora lá. Cheguei, e encontrei o querido gerente varrendo o chão. Sinal claro que a coisa estava feia. Iuhuuuuu!!! Falei que estava lá pelo cheque. Ele buscou. Eu recebo e sem dar meia volta digo que estou de volta e procurando emprego. Ele fechou a cara, disse que o deixei com sérios problemas quando fui embora “daquele jeito”! Vai saber “que jeito”, mas mais uma vez eu estava lá pedindo emprego, então só balançava a cabeça afirmativamente. Depois de uns minutos de resmungação eu já perdi a paciência e soltei um: “Ok, Sean. Just in case”. Já estava indo embora quando ele me chamou de volta e perguntou: “Posso pensar sobre o assunto?”. Of course, my dear!
Pensar, o bicho estava desesperado. Volto pra casa lentamente. Passo na perfumaria pra ver o que há de novo na nossa Drublim e de repente, não mais que de repente, meu telefone começa a tocar. E é o nosso bom e velho amigo Sean de sempre. Ao menos dessa vez eu consegui entender que ele queria conversar comigo no dia seguinte.
Pimba! Ok. Você pode voltar. Estou de olho em você. Não faça novamente isso comigo. Preciso contar com você. Uma ladainha sem fim.
Sem fim mesmo! Não podia imaginar que o ambiente mudaria tanto na minha volta. O homem surtou. E surtou pra cima de moá!
Coitado do homem! Ficou chateado comigo e quis bancar o vingativo. E inventou o jogo: “tudo-o-que-acontecer-de-errado-é-culpa-da-Ana”.
Tudo mesmo! Não sou de ter mania de perseguição, mas eu dava risada de tão absurdo.
Exemplos, Ana! Porque sei que você gosta de dar uma de louca também!
Voilá! Mesmo se eu estivesse na primeira posição e a pessoa da última entregasse um burrito errado, a culpa era da Ana.
Caso o restaurante estivesse ultra-mega-power-busy e todo mundo estivesse “dando o sangue” pra ir rápido, mas mesmo assim a fila persistisse. Ah, a culpa é da Ana que é lenta.
A comida acabou antes de o dia terminar? A culpa é da Ana!
E o tempo todo cobrança que eu era lenta, que eu precisava ser mais rápida. Ficava tentando entender como podia ter regredido, mas o fato era esse e pronto.
Perguntava pras meninas se estava assim tão lenta e tal e todas diziam que não. Mas a verdade é que voltei pra lá meio a contragosto. Mais por medo de não encontrar outro emprego do que por morrer de amores. E não gosto de fazer isso. Sou a doida que precisa fazer o que dá na telha. E sou muito transparente. Tenho certeza que o gerente sentia minha insatisfação. Aliás, ficava resmungando o tempo todo em “portunhol”. E palavras mesmo quando não compreendidas no significado literal, imprimem alguma impressão, sensação, vibração.
Enfim… eu acredito nisso. Ele somava minha insatisfação com os problemas. Eu era a culpada. Até que ele não estava tão errado. Ter uma funcionária insatisfeita contamina todo o time. E eu estava fazendo um bom trabalho… afinal, eu sempre trabalho direito! Seja para o bem ou… hihi…
A gota d’água foi quando pedi quatro dias para viajar. Com antecedência… puxando o saco… fiz tudo direito. Ele deu. Depois que eu já tinha tudo planejado, ele tirou uma dia. E lá vai a Ana mal agradecia de novo. Falar que agora já tinha planos, passagem e tudo. Que precisava do dia e pronto.
Um ou dois dias antes da minha viagem aconteceu o lance da acabar comida no meio da tarde. Na véspera da minha folga pra viajar fui trabalhar. Trabalhei todo o “lunch time”, depois o bonitão chama-me e diz que está insatisfeito com meu trabalho. Que quando ele deu-me uma nova oportunidade eu teria que provar mais que 100% pra ele e não era isso que eu estava fazendo. Eu não pude controlar um risinho nervoso engasgado na garganta. “Posso ir embora agora?”. Foi tudo o que perguntei. Agradeci pela oportunidade e fui embora. Agradeci e agradeço, de verdade. Ao total foram quatro meses de trabalho duro, aprendizado, diversão (por que não?) pagamentos em dia e burritos todo dia. Mas a partir dali não dava pra seguir. Eu estava insatisfeita, ele estava insatisfeito. Fim da relação.
Fiquei pensando, eu não deveria ter feito um escândalo?! Se quando eu avisei minha demissão com um mês de antecedência não foi suficiente, imagina demitir-me após o “lunch time”? Mas tudo bem. Tem um famoso ditado que diz: “quem pode, demite na hora… quem não pode, avisa com antecedência…”. Acho que não era exatamente assim, mas só me vem isso à mente agora e ideia é essa.
E agora o que sera dessa lokinha em Drublin?
So festa, balada e diversao? Ou morrer de fome na Europa?
O restante da historia voce acompanha neste mesmo canal, sem garantia de hora. Fui!
#ninguemestamesegurando

Frases soltas…

As vezes estava no busao indo trabalhar no aeroporto me vinha umas “verdades”! Dai eu anotava no celular. E agora esta aqui pra voces, afinal, “verdades” sao “verdades”!

– Minha gargalhada eh motivo de prazer para os nativos dos mais diversos idiomas ao redor do mundo.
– Sou uma pessoa constantemente feliz, mas facilmente irritavel. Isso constitui um paradoxo nao somente para minha pessoa, mas tambem para os amigos mais intimos.
– Aprendi a me alimentar melhor.
– Se voce comete excessos, ou precisa encontrar um equilibrio, ou tera que saber lidar com os excedentes.
– Excessos cometidos durante anos, nao sao eliminados em duas semanas. (infelizmente, diga-se de passagem).
– Voce pode ter um relacionamento com alguem que fala seu idioma e conversar pouco. Voce pode ter um relacionamento com uma pessoa que nao fala seu idioma e conversar muito.
– Ter mais espaco para minha pessoa significa: mais bagunca esparramada por todos os lados.
– Roommate eh a pessoa que lembra voce a colocar a plaquinha do bruxismo antes de dormir. (ate porque ela escuta o barulho dos seus dentes rangendo). Ah, e eh alguem quem voce precisa respeitar = tentar controlar a bagunca.
– Namoradinho tem quase a mesma funcao anterior, mas prefere que voce durma sem o mordedor.
– 7 graus nao eh frio. 10 graus eh uma boa temperatura. E o que voce esta reclamando? A sensacao termica eh so de -2°C, bora pra balada!
– Como eu ja suspeitava, eh muito mais legal e eficiente aprender historia e geografia ao vivo e a cores.
– A Ryanair ensina licoes valiosas sobre desapego.
– Mudancas geograficas nao transformam voce numa pessoa esportista, comprometida, focada, realizadora de projetos etc. caso voce ja nao seja! Mudanca de atitude mental, sim.
– Em geral, os europeus sao muito mais diretos e claros que os brasileiros. Isso pode dorer. Isso pode causar confusoes. Mas eh incrivel constatar como ficamos o tempo todo dizendo uma coisa e querendo que signifique outra. E ainda temos a cara de pau de sofrer quando o outro nao entende.
– Decidir doi. De vez em quando, doi muito!
– Quando sei o que quero, tenho uma energia que nao sei da onde surge, para realizar.
– Mudar de ideia sobre importantes pontos de vista, muitas vezes significa amadurecer. (em outros casos, um sem opiniao. Ou “Maria vai com as outras”).
– Meus “brown eyes” realmente sao “so exotics” no exterior.
– Uma das melhores decisoes que eu tomei na vida, foi deixar meu cabelo “black”! Os cachinhos sao um fenomeno! Sucesso de publico e de critica! hahaha

#dedinhossurtados