Em terra de bom ladrao: vão-se os dedos, ficam os anéis

medico palhaco

Assim como um bom poeta tem mais inspiração quando está sofrendo por amor do que quando está feliz, uma boa contadora de história, tem mais o que contar quando acontece uma tragédia do que quando tudo está tranquilo.

Então… oia eu aqui outra vez.

Enquanto escrevo essas linhas mal traçadas, meu super dedinho passeia flutuante sobre o teclado… sem poder digitar nenhuma teclinha.

O que foi dessa vez, ne genthem?

Estava Aninha pastry chef, cansadinha e estressadinha, se forçando para terminar um dezembro mega punk, trabalhando uma média de 14 horas por dia, literalmente, sambando o samba do criolo doido dentro daquela cozinha, servindo sobremesa pra 800 bonitos por dia…

A galera toda no limite do cansaço, misturado com stress e aquela sensação de “puta merda… isso vai acabar ou não?”

Sexta feira, o restaurante ficaria aberto até a próxima quarta, mas – teoricamente – era o penultimo dia movimentado do ano. Em cada canto ecoava o mantra “mais dois dias, mais dois dias”.

O almoço já tinha ido. 300 e alguma coisa… preparação… correria… tudo ficando pronto para o round 2 do dia…

Tirei um break, voltei – mais cansada e lesada do que tinha ido, porque quando o corpo esfria o bicho pega – continuei fazendo minhas preparações… arrumando tudo pro boom que aconteceria entre 20:30 e 23h… Quando foi umas 20:10 meu chefe volta de uma pausa cigarro e eu saio da cozinha pra ir tomar uma arzinho também.

Sentei por cinco minutos… dai fu… as pernas pesadas, a cabeça cheia, os ombros que sentiam o peso do mundo. Levantei pra voltar com uma ideia na cabeça: “Vou vazar! Pra mim deu! Hoje eles dão conta. Se ficar hoje, não consigo amanhã estar aqui de novo às 10 da manhã…” E todos esses pensamentos kamikazes estavam bombardeando a minha cabeça. Só tinha um porém: “Como vou convencer meu chefe disso, sem causar um bico que vai da cozinha e bloqueia a saída?” PQP!

Pensei: “Vou fazer um pipis, aí penso em alguma coisa, digo e já vazo bem rápido. Antes que o caos comece e mudem de idea”

E lá fui eu como um raio para o banheiro.

Pois é, amiguinhos.

Se você chegou até aqui, devo te alertar: As próximas cenas serão a descrição de muita dor, sangue e confusão. Encha o estômago. Esvazie a bexiga. Tirem as crianças da sala. E cola na da Aninha.

Atravessei o longo corredor que liga a parte de fora, com a cozinha e a parte interna do restaurante. Entrei pelo pequeno corredor que liga o escritório aos banheiros e trocadores dos funcionários. Para chegar à essa última parte, existe uma porta pesada, dessas que você puxa e ela volta sozinha.

Pois bem, puxei. Na hora que abri, alguém estava saindo do banheiro. Então segurei a porta pelo outro lado, para dar licença para a pessoa sair. Na hora que fui soltar a porta, minha mão deslizou por ela… e meu dedinho foi caçar o que fazer no vão da quina. A porta é pesada… O peso fez a porta voltar…

Não está precisando ser gênio pra sacar que o cacete da porta fechou no meu dedinho!!!

AAAAAAAAAAIIIIIII, QUE DOR!

A única coisa que fiz, foi empurrar a porta de volta, para tirar o cotoco e com a visão do sangue, fui deslizando para o chão. E lá fiquei, pensando: “Que merda, que merda, que merda, que merda”

É, galera, não esperem que vai ter muitas palavras bonitinhas quando a pessoa tá encarando tipo a ponta do ossinho falando “Hello! I speak English as well. Finally we met. How are you doing?”

Tipo, se não consegue lidar com alguém pensando e escrevendo “Que merda, que merda”, bem… vá à… procurar uma coisinha mais soft pra ler… hehe

Voltando ao dedo pendurado… eu lá jogada na chon… daí passou alguém no corredor e viu essa musa lá jogada às traças e claro que se desesperou para saber o que tava pegando. O porquê de tanto sufrimento.

Eu só fiz um sinal com a mão não afetada e disse: “Go get some help!” Lá, mona jogada… cena deprimente.

Em menos de trinta segundos estava rodeada de gente me perguntando o que aconteceu.

A sorte é que minha melhor amiga e o Gaetano também trabalham lá. E logo eles chegaram. Francine saiu melhor enfermeira do que a encomenda. E Gaetano, expulsou todos os urubus de volta e ficou lá sofrendo comigo.

Bora pro hospital? Calma que a coisa não é tão simples assim.

Um dos supervisores chamou uma ambulância e nos explicou (ele é irish) que mesmo sendo uma noite super busy (última sexta feira pré natal, todo mundo bebe, fica doidão e muita gente vai parar no hospital) era melhor esperar pela ambulância. Regra irlandesa: se você chega de ambulância, corta a fila e vai para o médico, se você chega a pé… vai fazer cadastro, esperar triagem, ser classificado na lista das urgências…e, literalmente, se não tiver nenhum orgão sangrando pendurado para fora, a fila de espera é de no mínimo 8 horas. Já fomos pro hospital e desistimos no meio da espera algumas vezes.

Então, lá vai Aninha carregando o dedo na prancheta ficar quietinha no escritório esperando a bendita ambulância.

Depois de muita, muita espera … 2h30 para ser mais preciso… chegou a bonita. Paramedicos… eu vestida de chef com dedo esquichando sangue passando por dentro do restaurante… todo aquele auê… A paramedica pediu para ver meu dedo, que estava coberto com uma gazezinha ordinária e a cara que ela fez não foi das mais entusiasmadas.

Enquanto ela me amarrava no cinto de segurança, ela perguntou se eu já tinha visto o estado do meu dedo. Eu disse que ainda estava acordada porque não tinha dado essa olhadinha. Ela perguntou se tudo bem ela explicar qual era a situation. Eu pensei: “To sentada, amarrada no cinto, a caminho do hospital, se tem algum lugar que a merda pode acontecer, é aqui.. se eu chegar desacordada, deve que vou ser atendida mais rápido.” Manda bala! Pode falar que eu aguento!

“Bem, sua unha tá solta…” Ela começou… “E a ponta do seu dedo está AMPUTADA. Acho que não tem jeito de recuperar. NINGUÉM nos disse que era essa gravidade de acidente. Alguém ligou para a central e disse ‘Um de nossos chefs cortou o dedo’ até aí, um chef cortar o dedo é coisa do cotidiano. ‘Qual dedo?’ ‘O mindinho’ ‘O sangramento está sob controle?’ ‘Tá sussa’ ‘Então aguenta aí…’ Daí nós fomos pegar uns bebâdos na rua, que na nossa escala de urgência era mais importante. Levamos SEIS e depois viemos buscar você.”

Nessa hora minha coloração já tinha passado por todos os tons de amarelo e verde possíveis… e fiquei lá pendendo e chacoalhando como um manequim sem vida.

Chegamos ao hospital e a cada um minuto vinha um ganso olhar meu dedo, fazia uma cara de super entendido, misturado com sou-empatico-com-sua-dor-então-sei-o-que-estou-falando e dizia “Yeah. It’s gone”

E eu lá com uma cara tipo: “Ah, que legal! Obrigada por me informar”

Depois dessa torturinha fui pra próxima tela. Sim, porque aquilo tava parecendo joguinho do Mario Bross from hell. Vamos ver o quanto ela aguenta e se ganha o cogumelo que permite ela receber algum tipo de tratamento.

Acho que dei os soquinhos certos, porque finalmente fui agraciada com a visita de alguém que mais parecia uma médica. Que depois de uma boa olhada e algumas caras e bocas, disse que precisaria dar uma anestesia local no dedo, para poder limpá-lo e eu teria que fazer um raio X.

Depois de umas duas horas, conseguir passar dessa fase, e outro médico veio olhar o dedo para dar o parecer dele também.

Ele começou assim:

“Você é destra ou canhota?”

“Destra”

“Boa notícia!”

“Você usa sua mão para trabalhar?”

“Bom, sou confeiteira e escritora… então acho que sim”

“Você usa sua mão para praticar seus hobbies?”

Juro que fiquei tentando imaginar alguma atividade que não use as mãos… mas estava vendo que aquela conversa não estava indo por um caminho muito bom.

“Então… no pior dos cenários, você vai perder a ponta do seu dedo. Mas vamos lá. A ponta do dedinho não é lá essas coisas. A gente não usa muito. Você não vai nem perceber que ele não tá mais aí…” E continuou nessa linha de raciocínio por uns dois minutos até que eu o interrompesse.

“Olha, acho que eu entendi essa parte. Mas eu queria discutir a opção de manter o pedaço do meu dedo. Já convivi com ele por 29 anos e meio que desenvolvi uma relação de carinho com ele”

Juro que disse isso.

JURO JURADO!

Daí ele riu de nervoso e continuou:

“Ah, sim, claro. Estava falando do pior dos cenários. Mas a gente vai fazer de tudo para mante-lo”

E parou. Ficou CINCO MINUTOS falando o quanto eu não ia sentir falta do meu dedo. E fala uma frase sobre a genuina intenção de manter the fuck finger!

“So… TELL MORE ABOUT THAT!”

“Então… você VAI PRA CASA AGORA e AMANHÃ de manhã a cirurgiã plástica vai dar uma olhada no seu dedim”

E lá vai eu pra casa com o dedo pendurado… (eles fizeram um curativo xinfrim… mas pra que parar de dramar, né?)

Depois de três horas, lá vai a Ana voltar pro hospital.

A cirurgiã:

Bom… ela chegou atrasada. Não tinha roupa de médica. Foi tirar o curativo do dia anterior com uma tesourinha cega, sem apoir minha mão em lugar nenhum. E mesmo assim, tinha que garrá todas as minhas esperanças nela. Que outra opção eu tinha.

O parecer dela: “Vai ficar tudo bem” Começou ela com as palavras que soavam como música para meus ouvidos. “Seu dedo está meio amputado, sim. Mas ainda tem circulação na parte solta. O que é fundamental. A unha saiu inteira, então a gente vai tentar botar ela no lugar. A ponta do osso tá quebrada, mas é a pontinha. E desde que você não seja uma pandeirista profissional compulsiva, acho que você não vai querer ficar batendo a ponta do seu mindinho a torto e a direito. Eu vou costurar tudo no lugar e você vai arrasar!”

Uhuuuuuu!!! Dedinho is back! Pensei…

Bora arrasar e não vejo a hora de enfiar ele no c… de todo mundo que ficou “It’s gone… it’s gone” Sifu… foi o segundo pensamento…

Mas bora não colocar os carros na frente dos bois, nem dedo amputado no fiofó de ninguém…

A dotora disse que ia ali preparar a sala de cirurgia e já me chamava pra um chazinho e uns pontinhos.

Pois bem… o “já” se transformaram em OITO horas. E às quatro da tarde o centro cirúrgico estava pronto para receber essa presença brasileira, afro, latina, tropical, inesquecível.

Juntei meus panos de bunda, dedo pendurado e fui.

No centro cirúrgico era eu, a dotora e mais quatro assistentes. TODAS mulheres! Fiquei super orgulhosa e feliz… e mesmo dopada, fiz questão de falar o orgulho de estar entre monas poderosas.

Fiz a cirur… Durou uma horinha… eita horinha interminável quando você tá lá acordada… depois de mais de 24h de jejum + exausta por estar trabalhando 14h por dia + ter sofrido um acidente traumático + todo mundo falando que você vai perder um pedaço do seu dedo + ter dormindo por 3 horas + anéstesias que doem pra cacete + médica conversando com a instrumentista sobre seu dedo e girando sua mão pra lá e pra cá.

Depois que acabou a parte do castelo (estamos no Mário, lembra), a Rainha Diva Mor veio falar comigo:

“Intonces. O bicho pegou. Foi mais tenso do que eu tinha calculado. A circulação não tava toda essa maravilha que eu pensei. Soquei a unha no buraco. Bora torcer pra que nasça outra. Ao menos um pedaço pra contar história. Mas tem umas unhas postiças babadeiras que as girls usam aqui… sem crise. Sobre o dedo. Lavei, distorci, costurei tudo no lugar. Agora vamos acender umas velinhas pra que o trem grude. Se não rolar, a ponta do seu dedo vai ficar preta, daí vamos ter que arrancar mesmo. Desculpa aê. Feliz Natal”

E é isso, folks.

Neste momento meu dedo está todo enroladinho.

Vou ir desembrulhar meu presente de Natal dia 29. E “torcer” pra que ela realmente tenha tentado colar. Porque nos meus piores pesadelos, ela já arrancou unha, pedaço de dedo, embrulhou e está rindo malignamente na casa dela, imaginando a minha cara na hora que desempacotar e eu ver o cotoco.

Anyway, torçam por mim.

E depois escrevo mais, porque digitar com nove dedos pra quem é escritora dá trabalho pra cacete e já to com a lombar doendo de tanto ficar aqui de lorota pra vocês.

Vocês querem novidades? Ficam chorando que eu não escrevo?

Agora toma!

E Feliz Natal

#alguemsegureestededinho #escreveunaoleuodedoperdeu #dedoeretoehdedobom #jaerapequenininhoimaginametade #doeu #pra #cacete

Balanço do ano véio

É… é o assunto do momento: 2014.

E o trem deve ser importante mesmo, porque fez até a nega véia aqui tomar vergonha na cara e escrever umas mal traçadas linhas nessa biróska.

Intonces… O que dizer de 2014?

UFA!

Foi uma GRANDE ano!

Um ano de muitas colheitas e claro… de mais plantio também.

Fui recompensada a reencontrar meu gringo lindo, depois de um ano de namoro à distância, centenas e centenas de horas de conversas via skype. Fui recompensada por acreditar num sonho, no amor, no outro. Fui recompensada por ter cuidado da sementinha que plantamos juntos.

Voltar pra Europa, reencontrar amigos, sentir tudo novo… de novo.

Dublin é uma mãezona. E, como já era de se esperar, nos deu as mais chuvosas e cinzentas boas vindas.

Mudar. De casa, de país, de continente, de língua, de clima, de profissão.

Essa última, foi a maior das surpresas.

Esse ano me mostrou que meus dedinhos ágeis e inquietos podem ir além e criar mais que roteiros e campanhas… eles podem criar tortas, mousses, bolos, pães… e um mundo de coisas doces e bonitas.

Descobri que não preciso me crucificar e me subjulgar por trocar briefings e o laptop por farinha e batedeira. Posso usar minha critatividade em outras atividades que não exijam que eu exiba meu diploma de graduação.

E o melhor, posso ser feliz fazendo isso.

No fim, uma parte da vida da agência ainda está lá… a começar pelos clientes. Ah, sim, sempre eles… clientes exigentes, clientes confusos, clientes que não sabem bem da onde estão vindo ou pra onde estão indo.

Dias tranquilos. Outros tantos busy, busy, busy. Com hora para entrar, mas sem para sair.

Correria. Pressão. A exigência de servir 500 com a mesma qualidade de quando estamos servindo 15.

Trabalho em equipe.

Feedbacks.

E bora recomeçar tudo de novo.

Recomeçar tudo de novo.

Sou uma pessoa de recomeços. E, mudar de profissão, em outro país, em outra língua, foi uma das surpresas boas de 2014.

Foi um ano muito introspectivo também.

Foi um tal de “cuidar de mim”, “cuidar do meu relacionamento”, “pensar na minha vida”.

Aproveitando o fato da família e amigo estarem longe, me dei essa oportunidade de olhar pra dentro.

Claro, como consequência, isso fez com que em 2014 a Aninha estivesse bem ausente.

Coisa que quero mudar para 2015.

Consegui manter bons hábitos que adquiri em 2013. E o fato de trabalhar entre doces e gordices o dia todo e não ter reengordado o que emagreci em 2013, me deixou muito orgulhosa.

E lá vamos nós de novo colocar no planejamento de ano novo: entrar (e usar) na academia.

Também quero ter mais amigos ao meu redor. Já que os velhos não couberam dentro da mala pra vir pra Europa, (mas continuam morando no coração e nas redes sociais, pra sempre). O jeito é fazer amigos novos, juntar com os véios e fazer um super balaio de muitos amigos!

Também quero dançar mais.

E viajar mais também. Ah, sempre, mais e mais

E continuar amando e sendo amada! Ah, essa parte é ótima!

E continuar sonhando. E inventar ousadia e coragem para transformar os sonhos grandes em realidade.

E lá vamos nós!

2015 já chegou chegando.

Nem me deu tempo de fazer uma retrospectiva enquanto ainda era 2014.

Então, bora correr pra não perder esse trem bala chamado 2015.

Adoro ano novo.

Amo este momento de fazer um balanço, pensar no ano que passou, ticar o que realizou, recolocar no planejamento do próximo ano aquilo que não deu tempo-jeito-grana-momento-oportunidade de realizar.

Por mais piegas e subjetivo que seja, é bom sentir esse mundo de possibilidades se reabrindo. Parece que diz: “Pronto, zerei o cronometro. Vai lá e tenta de novo. Vai lá e arrasa!”

E eu vou.

Eu sempre vou.

Feliz ano novo para todos!

Muita paz, muito amor, muita alegria e motivos para sorrir. Muita simplicidade (afinal, pra que complicar, né?). Que você sinta muita vontade de fazer o bem sem olhar a quem e um desejo enorme de ser uma pessoa melhor a cada dia. Todos os dias.

#alguemnaomesegure

#feliz2015

#querovertodomundoqueeuamofeliz

#queroamartodomundo

#behappy

Aninha Pastry Chef

É, galera, quem é vivo sempre aparece. Não sei o que exatamente significa “sempre” neste caso, mas com certeza não é sobre frequência.
Sim, quase três meses em Dublin. Quase sem dar notícias.
Então sem mais delongas, vamos lá!
Pra variar, o assunto é sobre trabalho.
É, minha gente… emprego, labuta, fatiga, lida, ocupação, dar duro, work, job.
Tudo isso pra ganhar um tutu, uma bufunfa, levantar uma grana, ter dinheiro, verba, tá cheio de moeda, encher o bolso do vil metal, ter uma nota pra gastar, ganhar uns pacotes, juntar pataca, prata, fazer um capital, queimar uma quantia… enfim, tudo aquilo que nós, capitalistas selvagens, já estamos ligados.
E lá vamos nós com as histórias de trabalho da Aninha. É isso mesmo. “Trabaiá” é uma das únicas coisas que a Aninha sabe fazer. Quer dizer, a Aninha sabe fazer um monte de coisa, mas todas elas se resumem em: trabalhar!
A Aninha agora é Pastry Chef! Pra quem não sabe, isso significa que eu faço (e posso comer, consequentemente) um monte de doces, bolos, sobremesas etc. HUUUUMMMM!!!! Podem soltar os cachorros!
E da onde a Aninha… quer dizer, eu (vamos parar com essa palhaçada de falar na terceira pessoa!)… retomando, de onde eu tirei a ideia de ser Chef Confeiteira na Ilha Esmeralda?
Senta que lá vem a história…
Bom, sempre tive uma atração fatal pela cozinha. Fosse pra comer – coisa bem inata mesmo – ou para xeretar minha linda genitora criando delícias e mais delícias e mais delícias.
Pois é, desde que me entendo por gente, sempre tive uma curiosidade de fazer isso e aquilo. E, principalmente, adorava fazer um bolinho, uma sobremesinha que fosse.
Quando estava com 15 anos, caí meio que de pára quedas num curso bem intensivo de confeitaria (a ideia era fazer um curso de secretariado+informática, mas só teria vaga para a próxima turma, então pra não ficar sem fazer nada, me inscrevi no curso de confeitaria + artesanato rsrsrsrs).
Lá eu era a queridinha da professora. Aprendi a fazer pães de lá divinos e sequilhinhos de cair o queixo. Entre outras cositas.
Com 16 comecei o magistério e o empreendedorismo tomou conta de mim… hahahaha… um monte de mulher o dia todo na escola, ganhanhdo uma bolsa pra estudar, com dinheiro, muito hormonio começando a florescer, espinha na cara e vontade de comer doce.
Opa, a Aninha está aqui! Seus problemas acabaram!
Comecei com bolo prestígio. Foi um sucesso de público e crítica.
Depois vi que as pessoas queriam mais, elas novidades. Fui em busca de especialização. Cursos de bolo gelado aos finais de semana.
Ponto!
Mas bolo todo dia não há quem aguente… (quer dizer, tem sim. Mas só os fortes!)
Era hora de avançar. De expandir. Era hora de ter uma sócia. Nada melhor do que uma grande amiga.
Passamos pelo pavê (muito custoso para o nosso público), sanduíche natural (sucesso de vendas, mas muito perecível, trabalhoso, demanda de muito material e muita força nos bracinhos para carregá-los) e finalmente chegamos no chocolate.
Hum… chocolate. Quem não gosta de chocolate? Quem não quer chocolate? Quem resiste ao chocolate?
Primeiros os bombons. Lindos, caseiros, delicados, recheados, suculentos. Chegamos na páscoa, com muitos ovos, corações e encomendas. Até nos aperfeiçoarmos tanto para termos os direito de produzir trufas de chocolate.
Sim, porque a vida não é assim, amiguinhos. Você não pode chegar de maneira leiga na frente de uma barra de chocolate Garoto de 3,5kg e dizer “Belezinha, hoje você vai derreter na minha mão! Vou te esquentar, vou te misturar, vou te transformar e você vai amar!” Nãããããããoooo!!!
Você precisa merecer, aprender, estudar, amar. E aí sim, o chocolate vai cooperar. Vai se modelar. Vai se deleitar. E seus clientes poderão se deliciar!
Fui estudar, minha gente!
Passei fins e fins de semana em cursos, pesquisando, imprimindo receita, testando, experimentando (porque ninguém é de ferro), fazendo pesquisa de mercado, para então chegar num produto de qualidade, com um custo acessível e um sabor inigualável!
Daí era só correr pro abraço.
Dos três anos de magistério, acho que ao menos 1 e meio, dentre outras coisas (grêmio, teatro, campanhas de festa junina, bons seminários e debates) eu era a “Menina da Trufa”.
O que era um ótimo marketing, motivo de orgulho, mas acabou virando um carma.
Um ano depois de me formar, fui à escola buscar meu diploma e quando fui passar em algumas salas pra dar um oi para os professores, as pessoas apontavam e gritavam: “Olha lá a menina da trufa! Você tem alguma aí com você?”
É, grandes poderes, grandes responsabilidades. Foi a lição que aprendi. Você não pode viciar as pessoas no chocolate mais delicioso do mundo e depois simplesmente ir embora, deixando dezenas, centenas, milhares, apenas sofrendo abstinência.
Eu fico imaginando essas meninas até hoje (já na casa dos 30 – olha eu revelando a velhice), com a família. Comendo um chocolate e contando pra todos as histórias das melhores trufas que ela já comeu na vida. Em como ela interrompia uma aula de prova, com o professor na sala, só pra pedir para a “Menina da Trufa” “Só mais uma por hoje, eu juro!” hahahahahahah
Velhos tempos. Boas experiências. Lembranças melhores ainda.
Enfim, todo este trololo, este nhenhenheim, este blábláblá, inclusive, acabei de dar uma fuçada no blog e no post “Carrot Cake” já tem essa mesma história, mas mais resumidinha… hahahahah… sim, seu esqueço o que eu escrevo!
E sim, essa história sem fim é para dizer que “Sim!” Suas experiências de vida podem te ajudar aqui na Irlanda.
No meu caso, é este meu amor de longa data pelos docinhos.
Como está no post anteriormente citado, da última vez que estive por aqui, minha primeira experiência trabalhistica foi numa confeitaria.
Pelas voltas que o mundo dá, não fiquei lá muito tempo. Só umas 3 semanas. Adorava o trabalho lá, mas era longe, eu tinha que pagar Dart e o chinês estava abrindo o negócio e não podia me pagar nem o salário mínimo.
Acabei ficando no mexicano, virei uma Pablo Picante girl e o resto das histórias, de dely em dely, estão nos posts anteriores.
Só que cheguei aqui dessa vez decidida a não trabalhar em dely de novo. Sério, fiquei traumatizada.
E botar a mão na massa, literalmente, era uma das ideias. Por que não?
Daí vem a segunda coisa importante aqui: fale pra todo mundo que você está procurando emprego e o que você quer fazer.
Bem, no primeiro apartamento que fomos visitar conhecemos uma brasileira e conversa vai, conversa vem, eu falei que gostava de fazer doces e tal. E ela comentou que trabalhava num wine bar e que eles estavam procurando uma pastry chef. Eu pensei “Ai, jisuis, eu gosto de fazer uns bolos e tal, mas PASTRY CHEF?” Sim, o nome assusta.
O ap não deu certo (já tinha outro casal pra dar a resposta e os cretinos, quer dizer, os bonitinhos, fecharam).
Ficamos mais duas semanas procurando casa desesperadamente.
Aliás, este é o tema pra outro post. A crise dos aluguéis aqui em Dublin. A coisa tá crítica mesmo.
Mas voltando, neste meio tempo procurando casa, achando casa, mudando de casa, tirando GNIB, eu não estava com cabeça pra procurar trampo. Resolvi deixar rolar.
Umas três semanas depois, encontrei a mesma brasileira no ônibus e ela disse que o restaurante ainda estava precisando.
“Uai, então é pra mim este trem!”. Pedi pra ela o nome do restaurante, refiz meu currículo, caprichei na “Pastry experience”, e sai mandando o cv para todos os emails que estavam no site.
Fui na grafton, imprimi meu lindo CVzinho e no dia que estava planejando ir lá pessoalmente pra entregar… (é, galera, quando encafifo numa ideia, eu perturbo messssssmmmmo). Então, eu iaaaaaaaa lá, pretérito imperfeito do verbo ir, o que significa que eu não fui!
E por que a Aninha não foi (a a mardita terceira pessoa quer reinar, não resisto). Não fui porque me ligaram!
YES!
Eu tinha um teste.
Fui. Gostei. Gostaram. = Trabalho.
A Aninha estava empregada, again.
Fiz o teste dia 04 de abril. Um mês e um dia em Dublin. Da outra vez foi igualzinho.
O restaurante é bem legal.
Estou aprendendo MUITO. Tenho sorte de trabalhar com dois chefs muito responsa e muito gente boa. Um brasileiro e outro das Ilhas Maurício.
Então, galerê!
Anime-se! Aprendam! Usem seus conhecimentos e capacidades mil!
Tira a bunda do sofá e faça acontecer!
#alguemnãomesegure #feliz #empregada #fazendodocepracaçamba

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte VII

Ta tudo muito bom, ta tudo muito bem.
Já comentei sobre o tamanho da minha preguiça para procurar emprego uma vez mais. O que não contei foi que a essa altura já era inicio de Julho. Isso significava que em três meses meu visto acabaria.
Era hora de tomar decisões.
As perguntas eram inacabáveis:
Renovar? Não renovar? Esquecer esse papo operário de trabalhar, ir viajar agora e voltar pra casa? Se renovar, vou ter dinheiro pra pagar curso, visto, ir visitar minha família no Brasil e comprar outra passagem de ida e volta? O que fazer mais um ano em Dublin? Vale a pena? Teria tempo pra estudar de verdade? O que fazer?????!!!!!
Meus miolos fritavam. Não conseguia pensar em outra coisa.
Sai uma ou duas vezes pra entregar currículo. Mas não encontrei nada tão interessante, pra voltar, almejar, pentelhar e conseguir.
Ninguém me ligou. Ficamos por isso mesmo. Só na amizade.
Ate que, depois de ver uma das flatmates da minha ex-casa, chorando de raiva do emprego e do chefe, perguntei se podia levar um currículo lá. Sadoquismo é para os fracos!
Ela foi super fofa e me explicou tudo. Ela trabalhava na praça de alimentação do aeroporto de Dublin. Trabalhavam vários brasileiros lá. Pra variar, né?
O trabalho dela consistia, basicamente, em recolher pratos, passar um pano nas mesas, quando o carrinho estivesse cheio de louças, levar para a cozinha, descarregar tudo para os kitchenporter e voltar para fazer tudo de novo. Existiam algumas posições rotativas. Por exemplo, ficar no café ou no caixa. Trabalhava – em geral – cinco dias por semana, 39 horas. Ela disse que o gerente era um louco que vivia chantageando, humilhando e demitindo as pessoas sem razões aparente. Que ele tinha demitido alguém alguns dias atrás e que ela pensava que não estava precisando de staff. Mas como ele era doido, não custava nada eu ir lá entregar um CV. Sadoquismo é para os fracos, a missão.
A primeira coisa que pensei: “Ao menos não é Deli. Bora lá!”
Fui sem muitas expectativas e entreguei o CV para o irlandês carecão doido. Pra variar, com minha sorte, no dia seguinte ele me ligou. No outro dia fizemos uma entrevista de 3 minutos. E adivinhem? Ele tinha uma posição de Deli pra mim! Uhuuuuuuuuuu!!! Só que ao contrário. Buá!
O’briens. Uma rede bem famosa de sanduíches e cafés em Dublin. Dia do teste. A equipe era formada por um brasileiro (o bendito fruto) e uma brasileira, duas polonesas, uma eslovaca e uma estoniana. Uma polaca e a estoniana eram as “gerentes”. Um lugar pequenino. Mas a cozinha era interligada e a mesma para toda a praça de alimentação. Trabalhávamos todos para a mesma empresa. Tudo limpo, organizado, HACCP, fiscalização regular. Outro mundo do que eu estava acostumada. Minha missão era decorar um menu gigante que ficava atrás de mim, na parede e fazer os sanduíches o mais rápido possível. Hora do lunch time. Um busy, uma fila que não tinha mais fim. Tinha chegado às 8 da manhã e pensei: “Deve que são umas três horinhas de teste”. Fiquei lá até às 16h. Sempre vá preparado pra tudo, quando se trata de um teste em restaurante em Dublin.
No fim do dia, a supervisora perguntou como eu me sentia. Foi no mural da escala e preencheu meus próximos dias. Estava em fase de “teste-treinamento”, mas pelo jeito, tinha um emprego.
No dia seguinte, pressão! Rápido, rápido, rápido. Você precisa trabalhar mais rápido! E uma das gerentes teve a ousadia de me dizer: “Não é o seu primeiro dia, preciso ver sua evolução!” Era o meu segundo dia!!!
O pior, era a Eslováquia girl, era o tempo todo me corrigia. Alguém me ensinava alguma coisa de um jeito e quando estava fazendo, ela aparecia pra dizer que era de outro jeito. Falava na frente do cliente e me deixava morrendo de vergonha. Depois, claro que fiz amizade com a brasileira, e descobri que ela era nova. Tinha umas três semanas que estava lá e já tinha sido ameaçada de ser mandada embora pelo mau serviço. Coitada.
O Summer time tinha acabado de começar. Quer dizer, em algum lugar do mundo já era verão. Não na Irlanda. Ou seja, todo mundo estava indo viajar pra algum lugar quente. Aeroporto abarrotado. Eu era supostamente o reforço para a alta temporada.
Os dias foram se passando, eu fui pegando o jeito da coisa, mas não gostava daquele lugar. Em geral, as pessoas trabalhavam lá infelizes. Todo mundo me perguntava: “Ah, você é nova?” “Sim.” “Tá gostando?” “To conhecendo e você, gosta de trabalhar aqui?” “Odeio esse lugar. Mas preciso pagar minhas contas!” Era a resposta mais comum que recebia.
Até o perfil de brasileiros que trabalhava lá era diferente. Geralmente gente que já estava há mais de um ano em Dublin. Um povo que realmente morava em Dublin. Muitos com namorado (a) ou esposo(a) que também morava em Dublin. Um perfil de imigrante. Pessoas que não viajavam muito. Viviam para pagar as contas, renovar visto, visitar a família no Brasil e voltar. Nunca frequentavam a escola. Tinham um inglês de rua. E eram totalmente submissos ao empregador com suas escalas, mudanças de horários, cortes de horas etc.
Comecei a pensar seriamente e vi que se quisesse renovar meu visto, entraria nessa vida. Não teria condições de dar-me ao luxo de viajar pela Europa, ir pro Brasil, comprar outra passagem, pagar escola, visto etc. Fora que estava apenas começando naquele trabalho, só Deus sabia quando poderia ter férias, ainda mais com tempo suficiente pra ir pro Brasil.
Quanto mais fazia contas, mais via que a vida de imigrante estava cada querendo bater à minha porta. Uma das soluções seria renovar o visto, continuar trabalhando fazendo sanduíches, não frequentar as aulas, perder minha passagem para o Brasil (coisa que muita gente fazia), e quando o gerente falasse que eu podia tirar férias (com menos de uma semana de antecedência) eu poderia ver se era possível viajar pra algum lugar.
Definitivamente, não era isso que eu queria. Não era isso que eu tinha sonhado e planejado para meu intercâmbio. Com menos de 20 dias que estava trabalhando lá, depois de uma crise de pânico e de choro, decidi que não renovaria meu visto. Meus dias de O’briens tinha data exata para acabar: 15 de Outubro. Fim do meu visto. Fim da minha permissão para trabalhar. Não renovaria meu visto.
Sentia-me aliviada por finalmente ter tomado uma decisão. Decidir, definitivamente dói! Como sabia do caráter provisório, comecei até a me divertir com as situações no O’briens. Com uma semana que estava trabalhando, o gerentão me colocou pra fechar todos os dias.
Esse era o terror de todo staff. O pior horário. O trabalho mais pesado. E quem ficava comigo todo dia até antes de fechar? Justamente a Eslováquia girl! Quando cheguei era ela que estava fechando. E desde o primeiro dia, ela ensinou-me como ajudá-la e o que tinha que ser feito para “fechar” o lugar. Eu não parava um minuto. Limpando, atendendo, no caixa, trocando bowls¸repondo as comidas. Tudo. Mas é claro que a situação mudou quando ela sabia que não precisava mais fechar. Que não era responsabilidade dela como a gerente ia encontrar as coisas no dia seguinte. Não seria ela que teria que ficar até uma hora a mais do horário para terminar tudo.
Depois que as gerentinhas iam embora, ela mudava de atitude. Antes, prestativa, rápida, sempre procurando algo pra fazer. Depois das 15h ela simplesmente encostava-se no balcão e esperava aparecer um cliente para ela atender. Se estava muito parado, ela tinha a cara de pau de “ir ao banheiro” e voltar depois de 15 minutos. Eu me irritava, mas até ria da situação. Uma fdp descarada. Mas o que eu podia fazer? Era a novata. Tinha obrigação de ficar calada.
Porem, a brasileira que trabalhava com a gente, e via a situação, ficava revoltada. Comprou a briga pra ela e declarou uma guerra silenciosa conta a Eslováquia girl, ou “Alemoa do pavão”, como ela carinhosamente apelidou a loirinha.
Tudo estava indo nesse ritmo, no primeiro dia que fechei a gerente polaca me elogiou muito. Disse que o restaurante estava brilhando pra ela abrir. Pela primeira vez fiquei feliz naquele lugar. Sou movida a elogios. Ao menos, me sentia fazendo algo útil. E por mais que ficasse depois do horário, ao menos não precisava acordar tão cedo e ficava uma hora sem atender cliente.
Ah, querida, mas a “Alemoa do pavão” estava totalmente decidida a acabar com minha tão disciplinada paciência. Quando a gerente não encontrava as coisas tão perfeitas, costumava perguntar como tinha sido o dia anterior pra pessoa que ficou com quem fecha. Pra saber se tinha sido muito busy , não tinha tido tempo de fazer todas as coisas. E a bonitinha geralmente respondia que “não, não muito busy”. Sendo que quando ela ia embora eu estava no meio de um campo de guerra. Depois ela passou a checar as coisas quando chegava cedo. Acho que ela ficou tão brava que a polaca tinha me elogiado, que ela começou a procurar sujeiras, e coisas pra apontar cada canto com farelo de pão. A gota d’água foi o forno.
O forno era um caso a parte. Eram dois fornos. Serviam para tostar sanduíches e esquentar bagels. Depois do lunch time, desligávamos um forno, esperávamos esfriar, limpávamos, religávamos, desligávamos o outro pra limpar. O objetivo era deixar tudo limpo antes de fechar. Ao menos era uma coisa a menos pra fazer. Geralmente, quem estava com a pessoa que fechava se oferecia pra limpar ao menos um dos fornos. Afinal, quem fecha, tem 9789979 coisas pra limpar. É claro que a “Alemoa” não. Depois que eu comecei a fechar, ela nunca mais limpou um forno. Pois bem. Eu não ligava de limpar. Usávamos um produto corrosivo, era necessário usar uma luvona grossa até o cotovelo, mas o problema é que não tínhamos máscara e o cheiro era extremamente forte. O produto que usávamos acabou e no lugar veio outro que deixava o forno um pouco o opaco. E por mais que você enxaguasse, ele manchava quando o forno era religado. A boazinha, começou a chegar pela manhã e abrir o forno pra mostrar as manchas no forno. Querendo dizer que estava fazendo um serviço mal feito.
Aí me irritei! A cretina não ajuda e ainda quer te f*%&# de qualquer jeito! A brasileira ficou tão nervosa que até tremia. Revoltada de verdade. Senti que precisava fazer algo, nem que fosse mais por ela do que por mim. Esperei um dia perfeito. A última gerente iria embora às 15h, ela iria às 16h e a brasileira ficaria comigo nesse dia até fechar. Quando era quase dez pras 16h, não tinha cliente e era a hora da conversa.
Chamei a branquela na xinxa! Perguntei o que estava acontecendo e por que ela tinha feito aquilo. Peguei as luvas e disse: “Se você é tão perfeccionista, eu não vejo nenhum problema em você colocar as luvas e limpar o forno todo dia!” A bicha ficou pálida e disse que não era nada daquilo, que só mostrou e comentou: “Tá vendo? Quando eu fechava também acontecia isso!” Ah, vá! Falei que não tinha nada contra ela. Mas se, além de não me ajudar, ela estava tentando me prejudicar, eu não teria nenhum problema de fazer algumas reclamações sobre sua postura.
O povo da cozinha escutou a discussão e ganhei até um pouquinho de moral. Eita Ana briquenta, viu! Mas esse povo pede, hein, jisuis!
Depois disso, ela ficou alguns dias sem falar comigo. Depois teve um dia que foi lá, pegou as luvas e limpou o forno. Depois voltou na mesma preguiça. No fim, ela era só folgada. Mas eu conseguia até que trabalhar bem com ela. Bem nas minhas últimas semanas, a gerente estava achando a postura dela muito desleixada e suja e pediu para o gerente colocar ela pra fechar, pra ver se ela ficava mais esperta. Pra mim dava na mesma, já tinha pegado o jeito da coisa. Mas ela detestava fechar. A brasileira achava que justiça tinha sido feita. Tá bom então.
O verão foi acabando e o movimento também. Aos poucos, o gerente foi cortando horas. Em geral e acentuadamente, as minhas e do brasileiro. Primeiro uma hora por dia, depois um dia inteiro. De 39 horas, estava fazendo agora 28. E ele poderia fazer o que ele quisesse, quando quisesse e do jeito que quisesse.
Faltava pouco, o jeito era aguentar. Estava contando com aquele dinheiro. 44 horas a menos no mês fazia diferença, com certeza. Mas durante o verão tinha trabalhado até 6 dias por semana, 47 horas por semana. Tinha ficado totalmente exausta, mas ao menos compensaria um pouco.
Era hora de planejar o que faria. Como voltei para o Brasil em janeiro, tinha uma passagem que valia até o próximo janeiro. Podia trabalhar até meu visto acabar e depois viajar como turista. Na hora de decidir os lugares pra ir, tive que colocar na balança: “finanças + onde não posso deixar de ir + o que quero mesmo ver!”
Por exemplo, a minha sonhada viagem pra a Grécia ficou para uma próxima vez.
Londres era o vizinho que não dava pra deixar de conhecer.
Amsterdam com tulipas, Van Gogh e Anne Frank era o lugar com o qual sonhava desde sempre.
E pra seguir uma dica certeira e não ficar só na Europa tradicional, Budapeste pra fechar.
Parece que estava faltando alguma coisa? E a tal da Itália, dona Ana?
Ah, a Itália era um caso a parte. Sonhava com a Itália. Desde o início do meu intercâmbio, cogitava fazer uma viagem grande pela Itália. Até pesquisei alguns campos de voluntariado para ficar um tempinho.
E como quando a gente se move o mundo se move, surgiu uma oportunidade muito mais incrível de tirar umas “feriazinhas” na Itália.
Tudo decidido. Passagens compradas. Roteiro pronto. So faltava pedir as contas. Pensei seriamente em avisar nos 45 do segundo tempo, os gerentes daquele lugar eram realmente imprevisiveis. Nao podia me dar ao luxo de correr o risco de avisar com duas semanas de antecedencia e ele simplesmente dizer: “Ok. Nao precisa mais vir.” Bastava ele aumentar as horas dos outros staffs.
Mas no fim nao achei justo. Tinha recebido uma oportunidade, os meus colegas de trabalho deviam organizar-se. Avisei com um pouco mais de uma semana de antecedencia. Justificativa era mais que honesta: meu visto iria expirar, nao tinha intencao de renovar e nao teria mais permissao pra trabalhar. Agradeceram os servicos prestados e deixaram eu trabalhar ate o ultimo dia.
Todo mundo feliz. Quer dizer, quase todo mundo. O chefao-irlandes-carecao nao me falou uma palavra. No dia que ficou sabendo da minha demissao e teve que alterar a escala para proxima semana, apenas apareceu no balcao do O’briens. Fez questao de conversar com a estoniana, olhou pra mim e me mostrou os punhos com cara de poucos amigos. O que pensei: “Que profissionalismo!” E sorri. É o melhor que sei fazer na vida.
Se ele ofecereu o que tem: agressividade. Eu ofereco o que tenho: meu sorriso e cara de pau. 😀
O que posso dizer seguramente é que a experiencia no O’briens foi importante pra mim. Principalmente em relacao ao ingles. La tive que praticar ingles na marra. Trabalhava majoritariamente com estrangeiros, entao tinha que me virar. Além disso, atendi pessoas até por mimica. Centenas e centenas de turistas. Cada um com seu sotaque, jeito de pedir as coisas. O maravilhoso sotaque irlandes que me dava vertigens no comeco e depois nao me intimidava pra pedir pra repetir, apontar, falar de outro modo. É dificil, gente!
E tinham os que nao falavam ingles e ponto final. As meninas eram mais malvadinhas e nao faziam questao de ajudar. Eu tentava. Usava meu “vasto” conhecimento em espanhol aprendido no tempo de Pablo Picante. Arriscava umas palavrinhas em italiano, pela convivencia de amigos. O povo tinha fome! Achava maldade nem tentar ajudar. Fiz inumeros sanduiches so por mimica. E às vezes quando ajudava um em espanhol, por exemplo, ele voltava com uma turma de amigos. Falava: “Pede para aquela, ela fala espanhol!” As outras meninas ficavam de bracos cruzados e riam pensando: “Ta vendo? Se f&%$#!”
Mas teve uma certa espanhola de idade um tanto avancada, que um dia perdeu a oportunidade de saborear um delicioso sanduiche preparado por essa bloqueira porreta. Ela chegou, olhou a vitrine – era pos lunch time, estava tudo bem tranquilo – e gritou como se eu fosse surda: “Jamon y queso!”. Sem “bom dia, boa tarde, boa noite” e muito menos algo do tipo “por favor”. Em qualquer lingua que seja! Uma coisa que aprendi é que voce nao precisa necessariamente aprender uma outra lingua. Tente ao menos ser educado na sua! A entonacao e sentimento que voce coloca na sua voz, pode ser entendida independentemente do idioma. Eu soltei um automatico: “Sorry?” E ela gritou ainda mais alto e mais mal educada: “JAMON Y QUESO!” A resposta final foi: “Sorry, I don’t speak your language” E ela saiu achando um desaforo e resmungando. Ficou sem o misto quente, fia! Por favor, caros, sejam educados em qualquer idioma. Thanks! Grazie! Gracias! Obrigada!
Tinhas conversas ilarias com a brasileira que tornou-se minha amiga. Ela me xingava, me apelidou pejorativamente de “Curica”, pois é uma noveleira inveterada. E ainda ensinou as meninas da Polonia, Eslovaquia e Estonia como pronunciar pra me chamar assim também. Trocavamos confidencias em portugues, com um monte de gente envolta sem entender. Ela até gastou uma sessao com o terapeuta pra falar de mim quando disse que ia embora. Senti-me importante, sua galis! Hihi… deixou saudades e boas lembrancas! Desejo tudo de melhor pra ela. E para tantos outros brasileiros (e nao brasileiros tambem) batalhadores que conheci la no Wrights Food Hall.
È, foram sete partes dessa saga trabalhistica. Posts imensos. E nao é pra menos. Dos doze meses que morei em Dublin, trabalhei mais de nove. Foi o que mais fez parte do meu dia a dia. Era onde eu estava a maior parte do tempo. Mas foi bom. Diverti-me. Irritei-me. Aprendi. Aprendi muito. Nao posso dizer que sinto saudades daquela vida. No final sentia que meu cerebro estava diminuindo a cada dia. Trabalho de muito esfoco fisico e nenhum esforco ou desafio mental. Um dos motivos pra eu nao conseguir ver-me fazendo isso por mais um ano. Mas foi uma fase. Uma boa fase. Uma fase que dificilmente esquecerei. A nao ser que sofra um acidente da aviao, va parar numa ilha deserta e nao me lembre nem do meu nome. Nesse caso, sim. Esquecerei. Ué, nunca se sabe, genthem!
Ufa, missao cumprida! Nao, nao dos trabalhos. Do blog.
Agora podemos mudar de assunto, finalmente! Uhuuuuuu!!!!
Sugestoes?
#alguemmedaumaideia

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte VI

Ufa, chegamos no ultimo post da saga…
Quer dizer, pegadinha!
Eu pensei que era o ultimo… mas voces vao ter que me aturar mais um cadim, so!
Bem, mais uma vez desempregada! Ja estava virando moda. E eu estava cansada. Cansada de bater perna, cansada de fazer cara (e ter de ser de verdade) hardwork, cansada de prever que ia dar merda de novo. Estava comecando a bater um pessimismo. E eu nao sou uma pessoa pessimista. Era comeco de julho e eu nao sabia o que queria fazer.
Meu ingles nao tinha melhorado muito e eu comecei a pensar seriamente na ideia de ser aupair. Sem a pressao de restaurante, o servico nao era tao pesado e eu poderia praticar ingles. Tanto com os pais, como com a crianca, se fosse ja grandinho.
Bora la! Fiz o cadastro em uns dois sites e uma pagina do facebook. Um deles, é claro, era o site da tal Greice. Uma brasileira que é famosa em Dublin por conseguir posicoes de aupair para meninas.
As opinioes das pessoas que conheco, sao contraditorias. Devo dizer, que a maioria é grata pela oportunidade de ter conseguido uma vaga. Outras, a acham um tanto gananciosa, pois cobra das familias e das aupair uma taxa (que convenhamos, pelo salario das meninas, nao é nada barato).
Mas o fato é que ela tem muitas indicacoes e a maioria das aupairs que conheco, conseguiu por ela.
Feito o cadastro, fui convidada para um workshop com a tal da Greice. Opa, bora la. No comeco ela queria cobrar uma taxa, mas depois, com as varias desistencias, ela reconsiderou e fez for free. Era o primeiro workshop oferecido por sua agencia.
Foi um dia interessante. Uma palestra ministrada por uma psicologa. Dinamicas em grupo. Simulacoes de entrevistas com a familia. Depoimentos de quem vive, ou viveu, uma vida de aupair. Bem preparado, bom material didatico, um coffee com varios quitutes. Eu aprovei.
Mas nao aprovava as propostas que recebia. Depois que voce completa o cadastro, a Greice comeca a enviar mensagens por sms pro seu celular. Com a descricao da familia (Ex: Irish, mae fica em casa…), quantidade de “anjinhos” e idades (4 kids: 5, 4, 2 e 3 meses) horario (seg a sex, 7:30 as 9:30 e 13:30 as 18:30) dia e horario da entrevista, nivel de ingles exigido, algumas vezes se existe atividade extra (alem de cuidar das criancas e das coisas das criancas) e o salario semanal. Era ai que a porca torcia o rabo. Eu ja tinha minha casa, minha privacidade, minha vidinha. E a maioria das vagas eram pra ser live in, ou seja, morar com a familia. Em localidades distantes do centro de Dublin, ou no interior, e para ganhar em torno de 100 a 120 euros por semana.
Bem, considerando que voce nao tem gastos com moradia, contas, comida, talvez nao seja tao pouco. Mas pra mim, era. Pouco pra voce perder sua privacidade, ter que comer a comida que outra pessoa escolheu e preparou (e comida pra mim, é um caso serio), morar no trabalho, poder visitar seus amigos so nos fins-de-semana. E olhe la, porque a passagem pra voltar pra Dublin poderia sair tao cara, que muita gente ate desiste de voltar sempre.
Nao, definitivamente nao era o meu foco. Precisava melhorar meu ingles, é verdade. Mas ao mesmo tempo, queria ter minha vida, meus amigos, meu espaco, meu dinheiro. Queria viajar! A vida financeira de uma aupair, nem sempre, permite fazer muitas viagens. Descobrir que ser aupair na Irlanda pode ser uma carreira. Se voce possui boas referencias e experiencia, pode conseguir salarios melhores e ser babysister (que cuida das criancas esporadicamente, mas tem um salario por hora muito mais alto e pode cuidar de varias criancas) ou nany (uma baba especializada, que deve ter mais didatica. Nao so brincar, mas ser tambem uma educadora).
Enfim, eu nao tinha esse tempo, nem essa ambicao na Irlanda. Meu foco era outro. Por isso, acabei desistindo da ideia de ser aupair, sem ter participado de uma entrevista sequer. Nhé!
Acho super valido pra quem tem esse interesse. Conheco gente que adorou a experiencia. Acabou se tornando quase parte da familia, amava as criancas, melhorou o ingles vertiginosamente, com sotaque irlandes e tudo, teve mais contato com a realidade e cultura Irish.
Eu nao tive nada disso. Mas tenho outras historias pra contar.
Bom, por hoje fica essa de “quase-ser-aupair”.
A proxima, espero eu, sera a ultima parte desse assunto que “empobrece, emburrece e mata”. Mais conhecido como trabalho.
#alguemesquentemeusdedinhoscongelados
PS: Ah, ontem nevou aqui no sul da Italia! Primeira vez que vejo neve. Na montanha. Lindo! A explicacao para a #. Ta frio, po!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte V

Tchan, tchan, tchan…
Qual sera que foi o resultado da minha temivel, ameacadora e tempestuosa frase?
Nenhum…
Ela simplesmente foi embora com todo sua arrogancia e em poucos minutos o socio Irish chegou. Perguntou se estava tudo bem e a “Aninha-nao-sabe-esconder-o-que-pensa-e-sente”, disse que sim. Ele insistiu e eu disse o que tinnha acontecido. Ele ficou puto, disse que eu estava fazendo um otimo trabalho e que iria conversar com ela.
Eu nao gosto desses nhem-nhem-nhem em trabalho, mas tem situacoes que sao f…
No dia seguinte ela chegou possuida, dizendo que se eu me ofendi deveria ter ido falar com ela, que brasileiro nao pode queimar brasileiro etc. Fico pensando, ela é brasileira e achava que meu trabalho era “mamao com acucar”, as polonesas eram umas fofas comigo e sempre diziam que nao sabiam como eu aguentava o tranco e tal. E eu deveria fazer o que? Puxar o saco da grossa? Gente é gente. Em toda cultura e nacionalidades tem as que o genio bate e outras nao.
Gostei muito de trabalhar com brasileiro em geral. Essa foi a unica excecao. Pessoal esforcado, que nao tem medo nem preguica de trabalho, ajuda, ensina, orienta em tudo o que é possivel. Mas sempre tem um casinho pra virar um causinho, né?
Meu horario era das 7 às 15h. Claro que era impossivel terminar tudo o que tinha que fazer. Ainda tinha o detalhe: limpar a cozinha porca! No comeco estava indo embora todo dia 5, 6 da tarde. Mas nao tinha como aguentar o tranco. 11 horas em pé numa cozinha com a temperatura de uns 50°C na cuca o dia inteiro, nao é mole nao!
Falei com o Andy e ele colocou uma outra brasileira pra me ajudar. Ela ficava no dely até as 15h e quando eu ia embora ela descia e descascava uns legumes, adiantava algumas coisas e limpava a cozinha.
Tudo poderia ter caminhado pra algum lugar, se os donos nao fossem dois birutas. Eles mudavam de ideia todo dia. O restaurante comecou com uns 10 ou 12 funcionarios. Ate eu achava muito. Mas de uma hora pra outra ele comecou a demitir gente. Demitia 3, testava 1… As meninas do dely super sobrecarregadas. Dai ele simplesmente mudou meu horario para das 9 as 17h. Dizendo que assim nao precisava mais de ajuda e poderia limpar a cozinha. Eu praticamente nao dava conta de fazer o que tinha que fazer entre 7 e 12h, agora teria duas horas a menos.
Ninguem ficava no restaurante. Nenhum dos donos, nem o chef. O restaurante tinha cameras para todos os lados e eles ficavam nos assistindo tipo Big Brother. Depois vinha um dia pra dar “enrabadas” e falar: “Voce esta trabalhando mal!” “Voce é lenta!” etc.
Era bizarro. Uma das pessoas pra quem ele falou isso foi aquela brasileira. Ela ficou furiosa. Vivia dizendo pros quatro ventos que as outras meninas eram lerdas e ela levava o dely nas costas. Imagina ouvir do dono que ela era a lenta! Essa menina chorou, esperneou, chamou o dono pra conversar e falar que ela era boa, sim senhor! Poucos dias depois foi viajar pra Paris, no dia que deveria voltar, telefonou falando que o voo de volta pra Dublin atrasou e o Andy falou que ela nao precisava mais voltar.
E a coisa foi indo por esse rumo.
Quando tinha mais ou menos um mes que estava trabalhando la, tive uma infeccao estomacal. Algo que nunca tinha acontecido em minha vida. Comecei com umas dorzinhas abdominais tipo na quarta-feira. Ate comentei com as meninas do restaurante, mas tudo bem. Na sexta-feira a noite fui pro Boteco Brasileiro, pois ia ter o tal do Caio Castro como DJ. Fui ja moribunda e nao aguentei ficar nem uma hora la.
Voltei pra casa e os proximos dias foram de dor e sofrimento. Tudo que ingeria causava dores insuportaveis no meu estomago e em poucos minutos ia ao banheiro e botava tudo pra fora.
No total fiquei 5 dias podre. O fim de semana e so voltei a trabalhar na quinta-feira. Fui ao medico, tinha receita, atestado e tudo o mais.
Hoje tenho certeza que foi a comida la do restaurante que me fez mal. Nao costumava comer sempre la. Eles nao davam comida. Tinhamos um desconto de 30%, entao ou levava algo de casa, ou comia alguma coisa no Spar que ficava em frente. Mas de vez em quando, pedia pras meninas fazer uma wrap pra mim. Escolhia entre as coisa que estavam mais fresquinhas. Mesmo assim, as condicoes daquele lugar. E principalmente o fato da minha mente ficar pensando isso: “Alguem pode passar mal comendo a comida daqui! Alguem pode passar mal comendo a comida daqui! Alguem pode passar mal comendo a comida daqui!”. Irlandes tem estomago de avestruz. Resultado, quem passou mal? A propria Aninha! Foi um horror!
Ah, quando fiquei doente fui à uma medica polonesa que nao falava ingles! Uma comedia! Mas isso é assunto para outro post…
“O que aconteceu, Ana? Pelamor, diz logo porque esse post ja esta ficando mais comprido que o cabelo da Rapunzel emendado em Faroeste Caboclo e atrelado com November Rain!” (essa nem eu sei da onde eu tirei!)
Ok, leitores preguicosos! Vamos aos finalmentes.
Se voce pensou: “Ufa!” Vou escrever mais 20 paginas, so de raiva!
Brinqs!
Bem, desde quando eu estava no Pablo da primeira vez (em dezembro, eu acho) minha flatmate e eu, compramos ingressos para ir assistir Pearl Jam em Berlin! Ela faz parte do fa clube e tinhamos ingressos para os dois dias de show. Pois bem, os shows eram quarta e quinta. Compramos as passagens indo pra Berlin quarta e voltando sexta. Pois bem, planejamos assim, pois no Pablo eu trabalhava de domingo a domingo e tinha folgas em dias alternados durante a semana. Geralmente duas folgas. Entao pedir uma folga a mais nao seria o fim do mundo e eu poderia trabalhar o fim de semana.
O fato é que nao fiquei no Pablo. E no Chopped eu trabalhava de segunda a sexta. O restaurante fechava aos finais de semana.
Comecei a trabalhar no comeco de maio. O show seria no comeco de julho. Quando estava umas duas semanas la, ja avisei sobre minha viagem. Disse que precisaria ficar tres dias fora, expliquei toda a historia anterior e tals. Falei primeiro para o Brian (o socio Irish, que depois descobri que nao apitava nada) e depois, na frente do Andy, lembrei o Brian de avisar o Andy. E ele explicou tudo.
Ok. Aviso pra mim é aviso. E assim continuamos nossos dias felizes, trabalhando na cozinha porca e sem nenhum supervisionamento.
Ate que chegou a semana anterior a minha viagem. A essa altura do campeonato, o Rory de vez em quando aparecia pra mexer numa coisa outra na cozinha. Eu aproveitei e avisei pra ele tambem sobre minha viagem. Alguns dias antes da minha viagem o Slav pediu as contas. O Andy pediu a eles alguns dias para testar e treinar um substituto. Os dias se passavam e ninguem fazia nada sobre colocar alguem no meu lugar, nao sabia se o Rory viria, ou sei la o que. Por coincidencia, na vespera da minha viagem foram dois chineses fazerem testes. E um deles continuaria indo nos proximos dias. Melhor assim. Afinal, a cozinha era tao pequena e tumultuada que nem dava pra trabalhar tanta gente mesmo. Avisei pela ultima vez o Rory (pois era a unica pessoa responsavel que estava la) na vespera da minha viagem e fui tranquila.
Fui, assisti a dois shows incriveis do Pearl Jam. Na segunda noite ficamos na primeira fila, na grade mesmo! Quase no fim do show o guitarrista pulou do palco e fez um solo de guitarra olhando nos olhos da minha amiga! Foi o maximo!
Passeamos um pouco por Berlin. Tudo bem corrido e superficial, mas deu pra perceber quao moderna, cosmopolitana e “pra frente” é aquela cidade. Gostei muito!
Cheguei em Dublin na sexta feira a noite. E nao foi muita surpresa quando no domingo o Andy me liga e pergunta o que aconteceu. Eu disse que estava na Alemanha, ué! E ele teve a “cara-de-pequeno-pau-chinaman” de dizer que eu nao tinha avisado. Ah va!
Eu tentei explicar, disse que ja tinha avisado fazia mais de um mes, para os dois donos e na véspera avisei para o chef de cozinha. Ele disse: “Quinta-feira voce pode vir pegar o seu cheque, mas nao precisa vir mais!”
Ah, fiquei muito brava! Disse a ele que se ele nao precisava mais dos meus servicos, tudo bem. Mas que nao justificasse falando que eu nao havia avisado. Ele disse que eu tinha que relembra-lo, que ele era muito ocupado e nao tinha obrigacao de lembrar. Eu soltei um “ocupado eu nao sei, mas desorganizado, com certeza! Como voce pode administar um restaurante desse jeito?” Ele respondeu algo do tipo: “Eu sou o dono e faco o que quiser!” “Por isso aquele lugar vai de mal a pior! E adeus!”
Liguei para a outra funcionaria brasileira que tambem estava planejando viajar, para falar pra ela avisar 57 vezes pra nao correr o risco e ela solta: “Tarde demais, ele ja me demitiu na sexta-feira!”.
Resumindo, ele demitiu todas as brasileiras e comecou a contratar um monte de chines. Tudo bem. Se voce prefere trabalhar com quem é da sua cultura, eu nao vejo nenhum problema. Mas inventar motivo pra te despedir, ah isso nao admito. Enfim, mais uma experiencia para o CV. Mais uma historia pra contar.
Uma parte de mim gostava de trabalhar la. Nao sei exatamente o porque. Acordava às 5 da manha, chegava em casa totalmente destruida. Nao tinha forca pra fazer mais nada. Era pesado, puxado, nao tinhamos horario de intervalo. Apenas 15 minutos pra engolir alguma coisa. Ficava no minimo 8 horas em pe. Um calor de matar. Chegava em casa totalmente defumada. Meu cabelo, minha roupa, ate minhas meias e calcinhas cheiravam a tempero. Mas gostava de passar um tempo com minhas comidinhas. Picar, temperar, cozinhar. Sentia-me util e realmente fazendo algo de novo e interessante. Aprendi muito e imagino se fosse uma cozinha organizada e com um chef de verdade pra me orientar o quanto mais poderia ter aprendido.
É claro que valeu a experiencia.
Na verdade, foi a primeira vez em Dublin que pensei sobre meu trabalho. Ficava no caminho, em casa, até durante a ducha, pensando em como organizar melhor meu dia. Buscando solucoes e fazendo cronogramas hora a hora pra fazer um trabalho mais limpo, organizado e correto.
E bora la bater perna de novo… fico cansada so de lembrar quando… quer dizer, isso é estoria para o proximo post.
Quem leu esse até o fim, parabens! Dessa vez eu me superei. Meus dedinhos estao ate doendinhos… por isso dividi em duas partes.
So pra adiantar, o proximo emprego foi o ultimo, ok?
Ufa!
Inté!
#alguemmecarregue!

Pode ser sorte, pode ser azar… Parte III

Pois é… Fui pro Brasil. Voltei pra Dublin. Fui pra Portugal. Visitei a Espanha. Dei um role em Paris. E voltei pra Dublin de novo. E precisava de emprego.
O que acontece? Acontece que durante minha viagem “um passarinho me contou” que o Sean estava doido atrás de “staff”. Não tinha parado ninguém lá na minha ausência e todo mundo estava sobrecarregado de horas. E sabe o que mais? Eu tinha o cheque da minha última semana pra buscar.
Bora lá. Cheguei, e encontrei o querido gerente varrendo o chão. Sinal claro que a coisa estava feia. Iuhuuuuu!!! Falei que estava lá pelo cheque. Ele buscou. Eu recebo e sem dar meia volta digo que estou de volta e procurando emprego. Ele fechou a cara, disse que o deixei com sérios problemas quando fui embora “daquele jeito”! Vai saber “que jeito”, mas mais uma vez eu estava lá pedindo emprego, então só balançava a cabeça afirmativamente. Depois de uns minutos de resmungação eu já perdi a paciência e soltei um: “Ok, Sean. Just in case”. Já estava indo embora quando ele me chamou de volta e perguntou: “Posso pensar sobre o assunto?”. Of course, my dear!
Pensar, o bicho estava desesperado. Volto pra casa lentamente. Passo na perfumaria pra ver o que há de novo na nossa Drublim e de repente, não mais que de repente, meu telefone começa a tocar. E é o nosso bom e velho amigo Sean de sempre. Ao menos dessa vez eu consegui entender que ele queria conversar comigo no dia seguinte.
Pimba! Ok. Você pode voltar. Estou de olho em você. Não faça novamente isso comigo. Preciso contar com você. Uma ladainha sem fim.
Sem fim mesmo! Não podia imaginar que o ambiente mudaria tanto na minha volta. O homem surtou. E surtou pra cima de moá!
Coitado do homem! Ficou chateado comigo e quis bancar o vingativo. E inventou o jogo: “tudo-o-que-acontecer-de-errado-é-culpa-da-Ana”.
Tudo mesmo! Não sou de ter mania de perseguição, mas eu dava risada de tão absurdo.
Exemplos, Ana! Porque sei que você gosta de dar uma de louca também!
Voilá! Mesmo se eu estivesse na primeira posição e a pessoa da última entregasse um burrito errado, a culpa era da Ana.
Caso o restaurante estivesse ultra-mega-power-busy e todo mundo estivesse “dando o sangue” pra ir rápido, mas mesmo assim a fila persistisse. Ah, a culpa é da Ana que é lenta.
A comida acabou antes de o dia terminar? A culpa é da Ana!
E o tempo todo cobrança que eu era lenta, que eu precisava ser mais rápida. Ficava tentando entender como podia ter regredido, mas o fato era esse e pronto.
Perguntava pras meninas se estava assim tão lenta e tal e todas diziam que não. Mas a verdade é que voltei pra lá meio a contragosto. Mais por medo de não encontrar outro emprego do que por morrer de amores. E não gosto de fazer isso. Sou a doida que precisa fazer o que dá na telha. E sou muito transparente. Tenho certeza que o gerente sentia minha insatisfação. Aliás, ficava resmungando o tempo todo em “portunhol”. E palavras mesmo quando não compreendidas no significado literal, imprimem alguma impressão, sensação, vibração.
Enfim… eu acredito nisso. Ele somava minha insatisfação com os problemas. Eu era a culpada. Até que ele não estava tão errado. Ter uma funcionária insatisfeita contamina todo o time. E eu estava fazendo um bom trabalho… afinal, eu sempre trabalho direito! Seja para o bem ou… hihi…
A gota d’água foi quando pedi quatro dias para viajar. Com antecedência… puxando o saco… fiz tudo direito. Ele deu. Depois que eu já tinha tudo planejado, ele tirou uma dia. E lá vai a Ana mal agradecia de novo. Falar que agora já tinha planos, passagem e tudo. Que precisava do dia e pronto.
Um ou dois dias antes da minha viagem aconteceu o lance da acabar comida no meio da tarde. Na véspera da minha folga pra viajar fui trabalhar. Trabalhei todo o “lunch time”, depois o bonitão chama-me e diz que está insatisfeito com meu trabalho. Que quando ele deu-me uma nova oportunidade eu teria que provar mais que 100% pra ele e não era isso que eu estava fazendo. Eu não pude controlar um risinho nervoso engasgado na garganta. “Posso ir embora agora?”. Foi tudo o que perguntei. Agradeci pela oportunidade e fui embora. Agradeci e agradeço, de verdade. Ao total foram quatro meses de trabalho duro, aprendizado, diversão (por que não?) pagamentos em dia e burritos todo dia. Mas a partir dali não dava pra seguir. Eu estava insatisfeita, ele estava insatisfeito. Fim da relação.
Fiquei pensando, eu não deveria ter feito um escândalo?! Se quando eu avisei minha demissão com um mês de antecedência não foi suficiente, imagina demitir-me após o “lunch time”? Mas tudo bem. Tem um famoso ditado que diz: “quem pode, demite na hora… quem não pode, avisa com antecedência…”. Acho que não era exatamente assim, mas só me vem isso à mente agora e ideia é essa.
E agora o que sera dessa lokinha em Drublin?
So festa, balada e diversao? Ou morrer de fome na Europa?
O restante da historia voce acompanha neste mesmo canal, sem garantia de hora. Fui!
#ninguemestamesegurando