Usar as coisas e amar as pessoas?

whatsapp-image-2017-01-13-at-10-38-13-1

Ame as pessoas, use as coisas e não o contrário.

Já escutei essa afirmação várias vezes. É bonita. Faz sentido. Até a página dois.

Vivemos em uma sociedade de consumo. Em que as pessoas – em geral – estão esquecendo o valor das pessoas, das relações sociais, dos laços afetivos. E dando cada vez mais valor às coisas, ao status, às posses materiais.

Então faz todo o sentido dizer para usar as coisas e amar as pessoas e não o contrário.

Mas tem um outro conceito que gosto mais. Diz: “Não estou vivo, sou vivificado”

Várias vezes que estive perdida, confusa, sentindo que não tinha nada, nem ninguém, pensava na profundidade desse conceito. E parava para olhar tudo ao meu redor. Sim, as coisas materiais. Se estava deitada chorando na minha cama, pensava: “Estou numa cama, em cima de um colchão, tem ao menos duas camadas de lençóis, um travesseiro, uma fronha, as paredes em volta de mim, as roupas que estou vestindo, a comida que está na minha barriga neste momento, toda a mobília que está neste comodo. Em última análise, não estou sozinha.”

Quanto trabalho e quanto amor e centenas de pessoas não foram necessários apenas para que você acordasse hoje e encontrasse tudo o que você tem a sua volta e ao seu dispor?

Quando tratamos as coisas, simplesmente como coisas elas são frias, não inspiram sentimentos, são descartáveis, podem ser substituídas a qualquer instante.

Parece fazer sentido. Mas acho que faz muito sentido a indústria do consumo, que te faz “materialista”, no sentido de precisar de muitas coisas para viver, mas ao mesmo tempo “desapegado”, no sentido de conseguir descartar as coisas com uma facilidade imensa. Para comprar o próximo lançamento, a última têndencia, o que está na moda hoje.. que não será o mesmo de ontem, nem de amanhã… provavelmente o mesmo de 20 anos atrás, mas você nunca saberá, pois já se livrou de tudo das tendências passadas.

Já quando passamos a ver tudo o que nos cerca como a manifestação do trabalho e do amor de todas as pessoas, como recursos naturais que foram usados para te manter vivo, alimentado, protegido… nossa visão muda. Vemos que mesmo através das coisas, podemos amar as pessoas. Que talvez devêssemos cuidar mais de nossas coisas, com amor, como um gesto de amor extendido a quem arou a terra, para plantar o algodão, quem colheu, quem o transformou, quem teve a ideia do business, quem fez o designer, quem produziu, quem te vendeu… para você usar algumas vezes e pensar: “Acho que já deu, próximo!”

Sem contar em toda a água, degradação do solo, químicas e pestecidas usadas, a poluição de produzir e transportar para fazer com que aquele produto chegue até você.

Pra terminar, uma historinha. Sobre a xicarazinha que ilustra este post. Ela pertencia ao avô do meu namorado. Na Itália. Não sei quantas décadas atrás. Gaetano ama tomar café. Seu espresso. Curto. E as xícaras grandes não servem. Talvez a gente poderia ter encontrado xicarazinhas modernas e cool em alguma loja. Mas da última vez que ele foi pra sua cidade natal, ele passou na casa do avô e trouxe três xicarazinhas de lá.

Eu não conheci nono Michelle. Mas sinto-me afeiçoada à ele. Tantas histórias já escutei. E pesa o fato de toda a família dizer que ele iria gostar de mim. A brasileira. Ou seja, era gente boa.

Agora, eu que nem tomo café regularmente, tenho esse exemplo de amor vivificado todos os dias. Cada vez que lavo a xicarazinha, tomo o maior cuidado do mundo. Imagino as gerações que já tomaram café ali. Essa xicarazinha já viu mundos que eu nunca vi. Essa xicarazinha conheceu pessoas que eu adoraria conhecer. Essa xicarazinha é motivo de sorrisos nostálgicos e histórias do tempo da guerra, vida no campo, nevascas severas e orgulho da geração passada.

Eu não quero usar essa xicarazinha.

Eu amo essa xicarazinha, sua história e o que ela representa em nossas vidas.

Documentário muito interessante sobre moda: The true cost

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s