Pode ser sorte, pode ser azar… Parte IV

CV novo, animação velha.

Viajei, fui pra Irlanda do Norte, Giant’s Causeway e Derry, visitei Edimburgo. Viagens ultrarecomendas! Pero… Frio, frio, chuva, vento. Voltei com uma infecção de garganta na mala. Mudei-me de casa. E adquiri a síndrome da “preguiça da cama gostosa”.  Um frio da gota, quarto single, duvet macio e cama de casal confortabilíssima! Nem pra escola tinha coragem de ir, imagina procurar emprego! Peeeeennnnnnseeeemmmmmm numa preguiça!                                                                           

Depois de uns 10 dias mucosada em casa, resolvi dar uma voltinha. Entreguei uns CV’s pelo centro. E tomando um café com uma amiga pablita, ela me deu a dica de um restaurante que estava pra ser inaugurado na mesma rua da outra filial do Pablo Picante. Opa!

Na fachada tinha um anúncio chamando pra fazer parte do time e com um endereço de e-mail. Porém, a inauguração seria em dois dias. A ideia parecia boa. Um salad bar, comida fresca e natural pra take away. Eu gosto. Aliás, era super adepta do Salad Creations em Sampa. Anotei o e-mail, enviei meu CV dizendo o quanto seria o meu prazer de fazer parte do time e tudo aquilo que a gente já sabe. Mas fiquei pensando com meu zíper (não sou muito chegada a botões): “A inauguração é em dois dias. Eles não vão ter tempo pra me chamar, fazer entrevista e tal. Devem estar super envolvidos com a abertura e tal. A equipe já deve estar meio que formada. Preciso fazer alguma coisa além…”

Bora lá, ué! No dia da inauguração, peguei minha pastinha de CV’s e fui ver “qualéqueera”.

Estava um caos! Os donos estavam oferecendo comida de graça! (não sei se é uma prática comum em Dublin, mas penso que sim). Fila, fila, um mundo de gente. Na porta, dois rapazes, um chinaman e um Irish entregando flyers do restaurante e controlando o tumulto. Eu me apresentei, deixei meu CV e pensei: “tomara que esses planfeteiros entreguem isso pro gerente!”.

Ledo engano, o chinaman era simplesmente o dono e o Irish com cara de moleque, o sócio. Preconceitos que rondam nossa mente mesmo sem a gente querer!

E como eu sei? Porque no dia seguinte o Andy (o china) me ligou e chamou-me para uma entrevista no mesmo dia. Iupi! Cheguei e desci para o porão onde ficava a cozinha e o escritório improvisado. Bagunça, sujeita, desorganização. O Andy prontamente desculpou-se e disse que era por causa da inauguração e tal. Olhou meu currículo, perguntou sobre minha experiência com dely e com cozinha. Depois das minhas considerações ele disse que eu poderia fazer um teste na manhã seguinte. Iupi II!

Cheguei na manhã seguinte e conheci o chef da cozinha (Rory) e seu assistente (o polonês, Slav). Rory pediu pra eu ajudar a fazer uns espetinhos de frango e começamos a conversar. Um gordinho bonachão e atrapalhado, muito simpático e que arriscava umas palavras em português (e em diversas línguas). A vaga era para o dely, mas a verdade é que nunca saí da cozinha.

O Rory adorou meu trabalho e no fim do dia falou pro Andy: “Contrata essa garota! Ela é muito boa e eu a quero aqui!” Anotou? Copiou? Colou? Iupi III!

Se eu for analisar o trabalho que mais gostei no sentido do trabalho exercido, posso dizer que foi lá, no Chopped (by the way, o nome do restaurante). Meu dia passava voando, picar trocentos legumes e verduras, temperar, assar os frangos, presunto, lavar quilos e quilos de alface. Não tinha contato com os clientes, não tinha que encarar o caos do lunch time, a fila interminável, o irish acent pedindo coisas que eu não entendia e toda aquela bagunça do dely.

Mas em muitos sentidos, trabalhar no Chopped foi a experiência mais insana de toda minha vida!

Serião!

Pra começar, aquela cozinha minúscula, no subsolo, sem janela ou ventilação, quente que nem o verão no Piauí e imunda! Sim, imunda! O chef tinha um sistema de trabalho o mais porco possível! Picava coisas e saia derrubando no chão. E, claro, não limpava nada. Picava legumes e colocava as cascas e pontas no lixo, depois resolvia que iria usar para a sopa, daí voltava e recolhia tudo e botava na panela. Eca!

Fora que as entregas chegavam pela manhã e eles deixavam as coisas fora da geladeira por horas. Carnes frescas, incluindo frango e frutos do mar! Altamente perigoso pra saúde. Isso deixava-me louca!

Tudo era feito de forma desorganizada, na correria, no meio do caos. O Rory gosta do caos. Sente-se importante, indispensável, sei lá. Eu nao gosto do caos.

Porém o tal do Rory é um chef famoso e nao era o chef oficial do restaurante. Ele estava prestando um tipo de consultoria para abertura do restaurante, criacao do menu, organizacao do trabalho da cozinha etc. O que no caso dele significava “desorganizacao da cozinha!”.

A minha “sorte” foi que depois da primeira semana, o Rory sentiu-se mais confiante e comecou a retomar suas atividades e largou nos (Slav e eu) sozinhos na cozinha.

Era uma loucura! Primeiro porque o Slav nao era uma pessoa la, muito dinamica. Gordinho, calmo e do lema “devagar se vai longe”, ocupava-se a manha inteira de preparar as sopas do dia e descer as entregas. Dai eu tinha que me organizar para dar conta de fazer TODO  o restante.

Uma listinha basica das minhas tarefas em um dia de trabalho:

Vou comecar pelo trabalho feito apos o lunch time, pois era a preparacao para o dia seguinte:

12h30

– Limpar, cortar e marinar uma média de 20kg de file de frango.

– Cozinhar uma peca de 12kg de presunto.

– Limpar, cortar e marinar um peruzao de 5kg.

– Organizacao da geladeira.

– Descascar todos os legumes possiveis: beterraba, cebola, cenoura, batata, batata doce, laranja, pepino, limpar pimentao etc.

– Picar e preparar os vegetais “roasted”: batata doce, cenoura com uva passa, mix vegetais (abobrinha, cebola, pimentao, cenoura, batata doce).

– Gratinar queijo.

– Gratinar cenoura.

– Picar e preparar cebola caramelada. Uma panela gigante cheia de cebola, vinagre a acucar cozinhando por horas e empesteando todo o ambiente com um cheiro insuportavel!

– Marinar tofu.

– Preparar 17 tipos de molhos (Cesar, barbecue, maionese etc.) 17!!!! Era uma melacacao e um transtorno.

Era muita coisa e em grande quantidade! Tentava adiantar tudo o maximo possivel, pois pela manha o bicho pegava.

7h

– Checar o que havia sobrado do dia anterior e se estava em condicoes de uso (so pra constar, eu decidia se estava bom ou nao. Mas nao era treinada pra saber checar se estava bom ou nao!)

– Assar files de frango. Usavamos uma media de 180 por dia, cada forma eu conseguia socar uns 20. Ou seja, ao menos 9 formas. Colocar, virar, checar temperatura, tirar, colocar pra resfriar.

– Assar o presuntao.

– Assar peru.

– Assar umas pernas de pato engorduradas.

– Descongelar frutos do mar, salmao e camarao.

– Picar: tomate, pepino, cebola, cebolinha, repolho, pimentao, brocolis, vagem, abacaxi, laranja, abacate e sei la mais o que. Tudo picado à mao!

– Cozinhar noodles.

– Lavar e secar quilos e quilos de alface americana, alface crespa, espinafre, rucula, repolho, repolho roxo.

– Encher os tubos dos 17 molhos! 2 ou 3 de cada! (nem preciso comentar como esse trabalho era particularmente desesperador, né?)

– Subir com tudo isso e com ovos cozidos, os “roasted vegetables”, queijo, cebola caramelada, tofu, milho, umas pimentas. TUDO! Ou seja, fazer umas 100 viagens subindo e descendo da cozinha (no subsolo) para a loja.   

Nos nao éramos autorizados a preparar com margem de sobra, entao quando comecava o horario do almoco, comecava a loucura.

As coisas acabavam rapidamente e eles vinham pedir mais. Mais pra ontem! Eu tentava prever o maximo possivel e fazer o melhor. Mas nao era facil.

No comeco, tinha uma outra brasileira que trabalhava la e no dia da abertura ajudou na cozinha. Depois disso ela foi pro dely e eu fiquei na cozinha. Sempre senti um ressentimento da parte dela por isso. Ela tinha um jeito ja conhecido por ser um pouco despachada demais, falar tudo que pensa, meio mano.

Por mim tudo bem, voce faz seu trabalho e eu faco o meu. Todo mundo se respeita e ponto final.

Mas quando a parte do “todo mundo se respeita” vai pras cucuias, dai é complicado.

Ela sempre descia na cozinha pra pedir o que acabou. Ao contrario das outras staffs (majoritariamente polonesas) que vinham ja pedindo desculpa e falando “quando der, se voce puder, sei que voce tem um milhao de coisas pra fazer etc.”; essa brasileira chegava gritando e falando que os clientes estavam pedindo e ela ja nao tinha cara de falar que estava faltando isso e aquilo. Eu fazia, entregava pra ela, sem muito papo.

Até que um dia, ela desceu com a furia e TPM total cobrando uma coisa. Eu desculpei-me, disse que estava quase pronto e falei pra ela manter a calma que eu estava no meio de um monte de afazeres. Ela esbravejou dizendo que eu nao tinha ideia do que era trabalhar. Que ficar la no dely que era loucura. Que ela ja tinha trabalhado na cozinha (1 dia!) e que aquilo era “mamao com acucar!”

Eu fiquei muito brava e so soltei: “Por favor, saia da minha cozinha. Eu trabalho com uma faca na mao e nao quero perder meu equilibrio. Isso pode fazer com que eu machuque a mim mesma ou outra pessoa!”

Brinca com a Aninha!

E o que aconteceu depois? Eu a esfaqueei? Amputei meu dedo? Dei uma facada no peito do peru de com odio e furia?

Bem, isso fica pra amanha, porque esse post ja esta virando a historia sem fim parte 2335444.

#Alguemtiraafacadaminhamao!

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4 comentários em “Pode ser sorte, pode ser azar… Parte IV

  1. Karina Miguel disse:

    hahaha adorei “Por favor, saia da minha cozinha. Eu trabalho com uma faca na mao e nao quero perder meu equilibrio. Isso pode fazer com que eu machuque a mim mesma ou outra pessoa!”

  2. Larissa (Sister) disse:

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK’
    Juro que consegui imaginar sua cara de fúria e indignação para essa dita cuja mal educada, até ouvi sua voz O.o
    É muita saudade kkkk
    Aguardando mais haha.
    Quero saber o que a moleca respondeu, deve ter ficado com um medoo..

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