Pode ser sorte, pode ser azar… Parte II

No primeiro dia que saí pra entregar os currículos deixei um num pequeno restaurante mexicano numa vielinha perto do Stephen Green Shopping Centre. Nunca imaginaria que esse CV daria tanto pano pra manga!
No mesmo dia que deixei o CV com o Sky, o gerente do Pablo Picante me ligou. E eu não entendi quase nada! Sabia que era emprego, que ele queria marcar uma entrevista. Mas não entendia o nome do lugar, o local, o dia e quiçá o horário! Facinho assim!
Implorei pra que ele mandasse um sms com os dados que eu iria anyway. Ele concordou (eu acho rsrsrs) e ficou por isso. Na verdade tinha entendido alguma coisa sim… tomorrow… afternoon…
Que seja. Tomorrow chegou e nada do sms chegar. Resolvi retornar pro mesmo número e dar uma de louca. Afinal, não tinha nadica de nada a perder. Só que liguei mais ou menos 13h30, o que não sabia era que esse é o pico do lunch time! Uma mulher atendeu-me. Apressada. Parecia que uma guerra desenrolava-se ao seu redor. Ela perguntava sobre o meu “appointment”, com quem, que horas. E disse que ia deixar um recado com o gerente. Ih, miou! Pensei…
Se miou, só pode ter sido um gato preto da sorte. Porque em menos de uma hora recebi uma mensagem com todos os dados. Inclusive orientações tipo “Google” pra achar o lugar. Iupi!
Fui, fiz a entrevista. Quer dizer, balancei a cabeça afirmativamente quase o tempo todo e sorria. “Burritos, busy, team, hardwork…”. Novamente o CV. Ele apontou e disse: “Você tem experiência com pizza” e eu continuava balançando a cabeça afirmativamente. Ele disse: “Então acho que não terá problemas com a wrap”. Jisuizinho, o que será que ele quis dizer com isso? Era o que eu perguntava-me. “Test, tomorrow…” Opa, é nóix, chefia!
Fui, fiz o teste. Duas horas de teste, depois do lunch time. Muita coisa pra aprender. A primeira surpresa boa: brasileiras! Ufa! As meninas explicaram-me como ler o pedido, como esquentar a tortilla, como enrolar o burrito, como manter tudo limpo. Tudo. Galera muito gente boa, do bem.
Depois desse dia fiz mais dois testes. Lá o negócio era sério, tipo primeira fase, segunda fase do vestibular… kkkkk… Nesse período continuei indo trabalhar pro Sky quando ele chamava-me. E tinha o orgulho de dizer: “Um mês em Dublin e dois empregos!”. Brinca!
O teste final, tipo a banca de TCC, foi o dia do lunch time! O temido lunch time! E pra melhorar, sexta feira – o dia mais busy de todos – e… o gerente estava numa miniférias e quem estava trabalhando no lugar ele era o DONO do restaurante. Nada podia sair errado. Tensão, ansiedade, desespero, arroz, feijão, carne e pimenta para todos os lados. Gente, gente, gente! Como um lugar tão pequeno podia atrair tanta gente? Não sei, mas o bicho pegou.
Minha tarefa: fazer a entrega dos burritos. Consistia basicamente em tirar o burrito pronto da chapa, enrolar numa folha de papel alumínio que ficava sobre uma tabua quente, olhar o ticket do pedido, checar que era pra comer lá ou “take away”, gritar o número e entregar. A pessoa que fica nessa posição também é responsável por checar as “bowls”. Recolhe-las das mesas, limpar as mesas, colocar as “bowls” na máquina de lavar, tirar, secar, colocar os guardanapos e manter o sistema funcionando. Tudo seria muito fácil se o burrito não fosse um troço fechado o qual não é possível checar o conteúdo a não ser dando uma dentada. Ou seja, a ordem dos tickets era de importância vital. Caso fosse entregue um único burrito errado, isso poderia comprometer toda a sequencia seguinte. Atenção, agilidade e garganta. É, porque gritar números em inglês num lugarzinho apertado e cheio de irlandeses famintos e conversadores não é mole não.
Gritei, entreguei e passei! Ao final do lunch time nenhunzinho burrito entregue errado e o “job” era meu! Escala semanal, salário mínimo, city Center, refeição no restaurante “for free”, voltar pra casa a pé. Não teve jeito, tive que explicar pro Sky a situação e até coloquei-me a disposição nos meus dias de folga. Ele respondeu, desejou-me sorte e ficou por isso mesmo. Tchau bolinhos e comidinhas bonitinhas. Olá comida mexicana apimentada da peste! Trabalhei, trabalhei e trabalhei!
Nas primeiras semanas chegava em casa todo dia quase chorando de dor. Um corpo sedentário que não estava acostumado a fazer serviço pesado por 6, 7, 8 horas por dia, sofria. Meu dia começava às 9h da manhã quando ia pra escola, escola direto pro Pablo e terminava quase às 22h, quando fechávamos o restaurante.
Fechar um restaurante. Uma verdadeira corrida maluca! Centenas de coisas pra fazer e 30 minutos de tempo. Era assim: “1, 2, 3… valendo!”. Recolher louças, lavar, limpar, limpar, limpar, esfriar comida, recolher lixo, limpar mais, guardar, fechar, desligar, checar. Tentávamos adiantar o máximo possível antes de fechar propriamente. Mas nem sempre era possível. E mesmo assim terminávamos pelo menos 15 minutos depois do horário. Dependendo da dupla, meia hora, ou até mesmo uma hora depois. Trabalhar de graça. Não é divertido.
Quando reclamava das dores e cansaços pras meninas, elas diziam que era “normal”, todas tiveram essa fase. E que em um ou dois meses meu corpo se acostumaria. Um ou dois MESES?
Ai entrava a parte da pegadinha novamente: em dois meses estaria embarcando para as terras tupiniquins, mais conhecidas como Brasil. Minha pátria amada, idolatrada, salve, salve…
Como assim, Aninha? Como assim o caramba! Se você é um leitor inveterado deste blog, não tem nada de ficar perguntando isso, porque já sabe. Caso tenha caído de paraquedas agora, clique aqui. Blé!
Intonces, desde que eu comecei a trabalhar no Pablo, sabia que teria que pedir minhas contas em dois meses. Comecei a procurar emprego mais no “vamos ver o que que dá!” e agora teria a oportunidade de juntar uma bufunfinha e ter uma experiência real na Irlanda quando voltasse do Brasa.
Resumindo: quando minhas dores estivessem próximas do fim, eu vazava. Simples assim.
No começo pensei em pedir as duas semanas pra ir pro Brasil, mas depois vi que o gerente fazia uma novela mexicana pras “staffs” que já estavam lá há um tempão e realmente precisavam de férias. Imagina pra mim que mal tinha começado. No fim, resolvi emendar minha viagem pro Brasil com mais duas semanas e meia de viagem pela Europa e só depois procurar outro emprego. No começo de janeiro avisei o gerente, iria viajar no final do mês. Ele surtou! Hahaha… foi hilário! Pra dizer o mimino! Ele ficou inconformado! Disse que tinha me treinado, me dado uma oportunidade, gasto tempo e dinheiro pra formar uma funcionária e agora eu ia embora assim? E que eu não estava dando tempo hábil pra ele encontrar outra funcionária pra substituir-me! Um mês? Por favor, a linha de produção fordiana de burritos não é a coisa mais difícil do mundo que eu já fiz!
Não pude deixar de comparar, quando avisei no meu trabalho no Brasil que estava indo fazer meu intercâmbio, foi com o mesmo um mês de antecedência. E na ocasião o que ouvi foi “Obrigado por tudo e boa sorte!”. E vamos dizer que, convenhamos, meu trabalho era um “pouquinho” mais complexo do que fazer burritos. Por aí começamos a tentar ver as coisas como “diferenças culturais”. Hehe…
Mas o mais hilário foi quando tentei explicar que era o casamento da minha melhor amiga e eu não podia perder e tal… Ele interrompeu-me e disse: “Não, não, Ana! Eu não admito!”. Fiquei muito braba e soltei um: “Desculpa. Eu não estou pedindo sua autorização! Estou avisando-o pra que você possa encontrar outra pessoa ou o que quiser. Mas eu estou indo, não é uma questão de você deixar!”. Depois disso acho que ele ficou quase uma semana sem nem cumprimentar-me direito. Mal criado!
Uma das coisas boas do Pablo era o bom clima entre os staffs. O Sean é esperto e contrata sempre garotas latinas. Majoritariamente brasileiras e mexicanas. Povo que gosta de trabalhar pesado, não é de reclamar, dá um clima pro restaurante (mexicano!) e entre time. Conversávamos praticamente o tempo todo em um “portunhol”, até pra que o Sean não entendesse nossas besteiras. Ele não ligava. Falava que desligava os ouvidos pra gente. Desde que o trabalho fosse feito, e bem feito, ele queria era que a gente falasse sobre o que quiséssemos. Ponto positivo. Pois depois eu descobri que nem em todo lugar era assim. Ah não mesmo!
O ponto negativo era esse paternalismo, essa necessidade de pedir tudo cheio de tato, a falta de profissionalismo. Não dava pra chegar nele como profissional e falar uma coisa e pronto. Ele queria dengo, um pouco de puxa-saquismo e isso me irritava.
Outra coisa: prática de inglês: zero! Não forçava meu cérebro a praticar, pensar, construir frases em inglês. Resultado: quando o gerente ou algum cliente vinha falar comigo, ficava completamente insegura e enrolava-me toda.
Mas pra primeiro emprego, sem inglês, tive muita sorte. Como tanta gente costuma dizer.
Ué, sou sortuda mesmo! Não entendo essa surpresa das pessoas! Eu acho esquisito algumas pessoas serem tão azaradas e ficarem repetindo isso como se fosse um motivo de orgulho! Rsrsrsrs… vai entender…
Sortuda só, não! Cara de pau também!
Por que cara de pau? Não perca o próximo capítulo da saga: “Pode ser sorte, pode ser azar…” nessa mesma hora e nesse mesmo canal. Tchau!
#alguémnãomesegure!

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6 comentários em “Pode ser sorte, pode ser azar… Parte II

  1. Larissa (Sister) disse:

    A bonita escreveu tudo em italiano, e como eu entendo? Se fosse em inglês até que poderia tentar..
    A boadrasta tá perguntando se você foi intercambiar para aprender inglês ou italiano?
    Sei bem que a Diva escreveu e colocou tudo no Google Tradutor hahaha
    Pois bem, é isso que irei fazer agora rs.

  2. Larissa (Sister) disse:

    Maldito Google Tradutor!!
    Bazinga Aninha, estou ansiosa para a tradução, porque apareceu certas palavras obscenas na tradução do Google e eu duvido eu dó que você escreveria isso aí..
    Me recuso a continuar a ler traduzindo, coloque em inglês na próxima trollada!
    De sua Sister ansiosa e nervosa.
    Beijos

    • obscenidades? Esse google me conhece mesmo, hein! Quer dizer, que absuuuurrrdoooo!!!
      hahahaha… corrijido!
      Sem revisao, espero que as obscenidades tenham desaparecido, de outro modo, eh tudo culpa do google! hahahahah

      Bjoooooo

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