Pode ser sorte, pode ser azar… Parte I

Pode ser sorte, pode ser azar… estória antiga que conheci num treinamento da Folha de São Paulo, ministrado por Massaru Ogata em 2006 ou 2007… eita, estou ficando velha! Lembro-me dessa estória quando as pessoas me diziam: “Você eh muito sortuda! Conseguiu empregos em Dublin muito rápido!”. Quando a realidade de muitos estudantes não eh a mesma. Eh verdade, nunca tive problemas para CONSEGUIR emprego, já NOS empregos… ai eh outra historia… hihi… Bem, agora que acabou eu posso dizer que aquela frase é real: “um dia você ainda vai rir de tudo isso!” HA HA HA! Um ano em Dublin. 9 meses trabalhando. 4 empregos diferentes. Um tipo de estabelecimento: restaurante. Não foi um ano fácil. Foi um ano que aposentei minha massa cinzenta e botei pra trabalhar esse corpinho. E volto a dizer, não foi fácil! Mas foi o que fez com que eu pagasse minhas contas, aluguéis, comidinha, passeinhos e claro, meu tour pelas zooropa! O meu primeiro emprego foi o mais tudo: O que mais gostava o trabalho. O patrão mais fofo. E o que acabou mais rápido. (talvez o último motivo seja a razão para os dois primeiros 😉 ) Arranjei um emprego numa confeitaria em DunLaoghaire quando estava apenas 20 dias em Dublin. Um conhecido falou que seria interessante colocar minha experiência com confeitaria no meu currículo, e colocar inclusive alguns exemplos do que eu sabia fazer. Alguns tipos de torta, bolos etc. Dica dada é dica seguida! Uma amiga e eu decidimos ir procurar emprego, o primeiro dia em Dublin, city centre. E no dia seguinte, resolvemos arriscar nossa sorte um pouquinho mais longe. E chegamos a DunLaoghaire. Chegar lá é relativamente fácil, basta pegar o Dart sentido Bray (Connoly Station ou Tara Station). Concentramos-nos nos cafés, restaurantes e confeitarias. Pois era o “tipo” de currículo do dia. Pra ser sincera, era o tipo de serviço que eu (sem inglês e recém-chegada) tinha mais segurança de colocar no currículo que tinha experiência. Porque na verdade, eu tenho. Não naqueles estabelecimentos que estavam no meu currículo, tipo Amor aos Pedaços. Mas sou uma boleira de mão cheia. Na adolescência fiz curso de confeitaria, depois realmente comecei a vender bolos durante o magistério. De bolo passei para chocolates, daí fui fazer uns cursos livres de como trabalhar com chocolate, ovos de páscoa, trufas etc… Além disso, minha mãe é mineira, cozinheira, pão-de-queijeira, panetoneira, ovo-pascoeira, salgadeira, boleira, doceira… ela é mesmo uma guerreira! De tudo um pouco já saiu da cozinha da dona Débora. Seja para os estômagos famintos de sua prole, ou para os lares insaciáveis e pagantes, que ajudavam no orçamento da família. Eu como uma curiosa inveterada, passei boa parte da minha vida xeretando o que dona Maria aprontava na cozinha. Xerentando e ajudando, sejamos justos! Botar a mão na massa – literalmente – sempre foi comigo mesmo! E claro, depois dar uma provadinha! Afinal, ninguém é de ferro. E essa minha carinho redondinha de trakinas não nega! Hehe Enfim, voltando para Dublin… Vi uma plaquinha pedindo staff. Entrei e era uma confetariazinha bem fofinha (aí como estou desmunhecando com esses diminutivos, mas hoje está irresistível usá-los). Entreguei meu currículo pro Chinaman que estava lá e tentei apontar em meu currículo minhas qualidades perfeitamente compatíveis com aquele lugar bonitinho. Ele balançou a cabeça com cara de poucos amigos e se soubesse falar português teria dito: “Ok. Vaza!” Eu não sabia inglês, ou chinês, mas sabia ler “cares” (a arte de leitura de caras), fechei minha pastinha com meus currículos e… vazei. Encontrei minha amiga e enquanto estávamos decidindo o que fazer, se casávamos ou comprávamos uma bicicleta o chinaman apareceu na porta da confeitaria e chamou-me. Eu voltei e ele perguntou meu nome apontando no CV. Era a primeira coisa escrita em letras maiúsculas, negrito e total destaque, mas beleza… eu que estava pedindo emprego, ele podia ver ou não o que ele quisesse. Mostrei e ele perguntou se eu podia fazer um teste no dia seguinte. Pedi um momento, abri a agenda, olhei meus horários no cabeleireiro, manicure… talvez eu pudesse remanejar aquela massagem com pedras quente. Ah, não sei não, estava precisando relaxar… Brincadeirinha, blá! Disse: “Yes, Yes, Yes… tomorrow!” Tomorrow chegou e lá fui eu, com a cara e a coragem. Sem saber falar nem “farinha de trigo”, but… Daí claro, mais um fato tosco… Desde quando eu tinha saído do hostel e mudado pra minha casinha, falei pras pessoas que conhecia que era boleira e tals… e um pedido frequente era Bolo de Cenoura! Já tínhamos planejado uns dois dias de fazer o tal bolo, mas nunca casava de todo mundo poder ir no mesmo dia. Tudo bem, oportunidades não faltariam, pensava eu. E o que isso tem haver com meu teste. Tudo! Como sempre, o mundo é cheio de gracinhas com a Aninha. Cheguei na bakeryzinha o chinaman, que naquele dia descobri que chamava-se Sky (ele falava o próprio nome e apontava para o céu, hilário!). Meu novo boss pegou meu currículo e apontou uma coisa nele e disse: “Make me a carrot cake!” F…! Missão dada é missão cumprida! Fiz! Sem liquidificador, sem preparação prévia, sem saber os nomes dos ingredientes, sem respirar! Ralei as cenouras no ralador, bati tudo na batedeira e orei pra que desse certo! Enquanto o bolo assava, Sky mostrava-me as coisas na cozinha. Uma bela e espaçosa cozinha. Levou-me pra confeitaria e explicava-me o nome de cada doce, quanto custava etc. O bolo ficou pronto e deu certo! Ele perguntou se eu costumava cobrir com alguma coisa ou se estava pronto pra servir daquele jeito. Eu tentei explicar que fazia uma cobertura de chocolate. E cadê o leite condensado? Inexistente. Encontrei um “evaporated Milk”, perguntei se tinha chocolate em barra e tentei fazer um recheio de trufa improvisado. Botei em cima, raspei um pouco de chocolate pra fazer uma graça e disse: “É mais ou menos assim…”. Ele disse: “ok.” Cortou as fatias do bolo e COLOCOU-O NA VITRINE! Jisuis! Por essa eu não esperava! Depois dessa, o job era meu! Iuhuuuuuu! Ele ensinou-me a fazer scones (um tipo de bolinho amanteigado e às vezes com uva passa, muito popular na Irlanda), quiches, pork-roll, uns muffinzinhos cobertos com uma pasta de açúcar (Irish people like this! Sky dizia enquanto mostrava-me), um bolo de amêndoas, um tipo de doce feito com biscoito (tipo biscoito Maria) mel e chocolate derretido. Fiz muita massa para torta! E passava horas abrindo com o rolo e cobrindo as formas. Deixava tudo empilhadinho na geladeira, depois era só encher com o recheio de maçã, ou com o quiche. Na contramão ele usava meu CV como uma bússola. Taí um perigo de mentir no CV. Não é só o caso de conseguir o emprego. É o fato de saber fazer ou não o que você botou lá! Todo dia ele queria que eu fizesse uma coisa que estava no currículo. Hoje bolo de frutas, amanhã sua torta de maçã, pão de ló etc. Ele era muito curioso e queria aprender tudo que eu fazia. Era divertido. E porque não deu certo, Aninha? Bem… infelizmente nem tudo são flores. Ele estava começando o negócio, disse que tinha acabado de abrir e estava gastando muito dinheiro lá. Só podia pagar-me 7 euros por hora (lembrando que o mínimo na Irlanda são 8,65) e eu precisava pagar mais de 4 euros por dia só de Dart. Fora que eu não tinha um horário fixo, ele chamava-me quando precisava. Para trabalhar por 4 ou 5 horas. Às vezes de manhã, às vezes a tarde. E eu tinha explicado pra ele que estava estudando e poderia mudar meu horário de aula, se necessário, mas apenas uma vez. Enfim, eu poderia continuar levando desse jeito por um tempo. Estava gostando e aprendendo bastante. Gosto de confeitaria e comidas bonitinhas. Adoro aprender e ensinar também, por quê não? Mas o fator determinante chama-se “Pablo Picante”. Eeeee… Mas isso já eh estória para o próximo post. Afinal, um emprego que durou menos de duas semanas já me fez escrever esse tantao! Ate mais e #alguemmesegure

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2 comentários em “Pode ser sorte, pode ser azar… Parte I

  1. Larissa (Sister) disse:

    Aaah, eu me lembro muito bem dos seus cometários sobre o “Paplo Picante” rs.
    Ansiosa para a continuação 😀

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